Brasília - O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Nelson Jobim, criticou hoje a morosidade e o isolamento dos tribunais brasileiros e a vaidade dos juízes que utilizam o Judiciário ''para seu próprio deleite e própria biografia''. ''Nós ainda continuamos, rotineiramente, conduzindo-nos como se estivéssemos perante demandas individuais quando, na verdade, estamos perante o contexto de um todo'', discursou.
As críticas foram feitas durante discurso de abertura do ano Judiciário, que ocorreu ontem na sede do STF, em Brasília. A cerimônia, que marca o início dos trabalhos em 2005, teve ainda a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos presidentes do Senado Federal, José Sarney, e da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha -que também discursaram.
''A questão é saber se queremos fazer isso (melhorar o Judiciário) ou se desejamos exclusivamente nos servir do sistema judiciário para o nosso deleite, para o nosso orgulho e para nossa biografia'', afirmou Jobim aos cerca de 250 presentes, que incluíam, entre outros, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, e os presidentes dos principais tribunais superiores do país.
''A nação olha com atenção as nossas condutas. O povo não é tolo. Sabe quem deseja para si o poder ou quem deseja o poder para servir a todos'', completou.
Além de defender que os magistrados busquem atender aos interesses da nação e atender às demandas de massa, o presidente do STF ressaltou a necessidade de buscar a eficácia para combater a lentidão nos processos e o ''insulamento'' do Judiciário.
''O congestionamento nos levará à paralisação completa do sistema e é por isso a necessidade de formulação de mecanismos que melhorem a nossa capacidade de oferta de decisões'', disse ele. ''Entre as metas fundamentais, deve estar a eficácia'', acrescentou.
Jobim citou o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Sepúlveda Pertence, para afirmar ''que o sistema Judiciário brasileiro, com seus 96 tribunais, é um arquipélago de ilhas de pouca comunicação''. ''Esse insulamento administrativo tem levado à ineficácia porque cada um entende que a solução dos nossos problemas passe exclusivamente pelas idiossincrasias individuais de cada um desses tribunais.''
O ministro defendeu o Conselho Nacional de Justiça como ''um órgão que tentará desqualificar esse insulamento administrativo''. O Conselho Nacional de Justiça faz parte da Reforma do Judiciário, promulgada em dezembro último, e terá como objetivo fiscalizar as ações do Judiciário brasileiro.
O presidente Lula, Sarney e o deputado João Paulo Cunha também discursaram no evento. Os parlamentares elogiaram a Reforma do Judiciário e a integração dos três Poderes. O presidente da Câmara disse que a reforma não é ''panacéia para todos os males do Judiciário, mas é sem dúvida uma grande colaboração''. Sarney afirmou ainda que o Judiciário ''não pode se tornar uma instância recursiva'' das lutas políticas.

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