Agência Folha
De São Paulo
Último presidente militar, João Baptista Figueiredo marcou seu governo por um jeito rude de fazer política, mas que não impediu que, ao fim de seu mandato, fosse concluída a transição para a democracia. Mesmo realizando um governo menos autoritário que antecessores como Emílio Garrastazu Médici (1969-74), Figueiredo jamais foi um presidente popular. A tentativa de caracterizá-lo como o ‘‘João do Povo’’ fracassou, entre outros motivos, por seu temperamento. Por exemplo, em 78, antes mesmo de assumir o cargo, soltou a seguinte afirmação: ‘‘Prefiro o cheiro de cavalos ao cheiro do povo’’.
Ao fim de seu mandato, entregou a José Sarney um país em crise, mas que vivia a expectativa de uma democracia adiada por 21 anos. Ele se recusou a entregar a faixa presidencial a Sarney na transmissão – Tancredo Neves havia sido internado na véspera (14 de março de 1995) e nunca viria a exercer a Presidência. No dia da posse do ex-aliado, deixou o Planalto pelos fundos.
O início do governo Figueiredo foi marcado por uma série de medidas que conduziriam a um aprofundamento do processo de abertura. Ele decretou a anistia e promoveu a reforma partidária que acabou com o bipartidarismo. A anistia beneficiou, além dos exilados e políticos de oposição, os militares acusados de violência e tortura.
A reforma partidária tinha o objetivo de dividir a oposição, unida no MDB. O fim do bipartidarismo, em novembro de 79, rendeu a formação de uma série de partidos de oposição (PMDB, PDT, PP, PTB e, mais tarde, PT), enquanto o agrupamento governista (Arena) se aglutinou em torno de uma mesma legenda, o PDS. Seu governo foi marcado ainda por aquilo que o próprio Figueiredo chamou de ‘‘onda de terrorismo’’ – cujo episódio-símbolo foi a explosão de uma bomba no Riocentro, no Rio. O atentado, em 30 de abril de 1981, marcou uma mudança na estratégia política do governo. A crise provocada pelo ato rachou o núcleo do poder: o setor liberal foi marginalizado e acabou contribuindo para o fim do regime militar, em 1985.
A liberalização gradual iniciada por seu antecessor, Ernesto Geisel encontrava forte oposição da linha dura militar. Para implementar seu projeto, Geisel afastou os generais que contestavam sua orientação (Ednardo D’Ávila Mello em 76. Sylvio Frota em 77). Contudo, à medida que perdiam espaço no aparelho estatal, os setores radicais passaram a praticar atentados contra organizações da sociedade civil e outros alvos, como bancas de jornais (foram dez em 76, 15 em 78 e 46 em 80). Essa situação prosseguiu até o Riocentro. Na noite de 30 de abril de 81, duas bombas explodiram durante o show comemorativo do 1º de Maio. Uma delas explodiu dentro de um carro Puma, matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo o capitão Wilson Luís Chaves Machado.
O envolvimento dos militares dividiu as Forças Armadas. O chefe do Gabinete Civil, Golbery do Couto e Silva, queria a punição dos culpados. Figueiredo, porém, assumiu uma linha conciliatória, para não entrar em choque com os radicais. O inquérito foi reaberto este ano.
Golbery deixou o governo em 6 de agosto, sendo substituído pelo chefe da Casa Civil do presidente Emílio Médici, Leitão de Abreu. Figueiredo acabou marginalizando o grupo mais ligado a Geisel, liderado pelo vice-presidente Aureliano Chaves. Isso conduziu o PDS ao racha de 1984, que permitiu a vitória de Tancredo Neves em 1985 e o fim do regime militar.
Em sua sucessão, aliás, Figueiredo sofreu suas maiores derrotas políticas. Evitou por 22 votos a aprovação na Câmara da emenda que previa a realização de eleições diretas para presidente em 1984, mas não conseguiu escolher um candidato viável ao cargo. Ele viu dois pré-candidatos do PDS (Aureliano Chaves e o senador Marco Maciel) migrarem para a Aliança Democrática, que reuniu opositores e dissidentes do PDS em apoio a Tancredo Neves (PMDB). O PDS escolheu como candidato o ex-governador paulista Paulo Maluf, em detrimento do candidato preferido por Figueiredo, o ministro do Interior, Mário Andreazza.
A militância política e a opção pela carreira militar foram uma herança de seu pai, o general Euclides Figueiredo, opositor de Getúlio Vargas. No governo de Jânio Quadros (31 de janeiro a 25 de agosto 1961), Figueiredo ocupou seu primeiro cargo na Presidência: foi nomeado adjunto do Serviço Nacional de Informações e Contra-Informações. Ele participou da deposição de João Goulart em 64 e ocupou a chefia do Gabinete Militar do governo Médici. No governo Geisel, ocupou a chefia do SNI.

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