Jefferson acusa PT e Dirceu mas não mostra provas
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terça-feira, 14 de junho de 2005
Agência Estado 
São Paulo - Num depoimento contundente e rico em detalhes, mas não em provas, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, cumpriu ontem a ameaça de causar um terremoto político no Conselho de Ética da Câmara, acusando a cúpula do PT e o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de comandarem um esquema de corrupção que vai do chamado ''mensalão'' à formação de caixa 2 para campanhas eleitorais de aliados.
Segundo o deputado, as campanhas de todos os partidos são financiadas da mesma maneira: com dinheiro de empresas privadas que têm contratos com empresas públicas. Ele recomendou que Dirceu renuncie, sob pena de arrastar consigo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E insistiu ter falado sobre a mesada dada aos deputados com seis ministros, incluindo o da Fazenda, Antonio Palocci, que nega ter tido conhecimento do assunto. Só depois de ele falar com Lula, no início deste ano, o ''mensalão'' teria sido cortado.
O mais grave foi a denúncia de que o dinheiro usado para o aliciamento de parlamentares e partidos é público e chega aos destinatários por meio de empresas e agências de publicidade que mantêm contratos com o governo. Ele afirmou que o dinheiro para a campanha do PTB foi trazido pelo publicitário Marcos Valério, da agência mineira DNA, em malas com cédulas de R$ 50 e R$ 100 ''etiquetadas pelo Banco Rural e pelo Banco do Brasil''.
A negociação teria sido feita com o presidente do PT, José Genoino; o dinheiro, entregue por Delúbio Soares, tesoureiro do partido, e por Marcelo Sereno, secretário de Comunicação do PT e ex-assessor de Dirceu na Casa Civil. Genoino e Delúbio lhe teriam dito que ''a menor pedida foi a do PTB'', insinuando que outros partidos teriam recebido bem mais.
Dos R$ 20 milhões prometidos, apenas R$ 4 milhões teriam sido repassados, em duas parcelas. Jefferson disse então ter procurado Dirceu diversas vezes para cobrar o restante. O deputado contou ter dito ao ministro: ''Zé, está esgarçando, estou perdendo autoridade.'' Ao que Dirceu teria respondido: ''Roberto, a Polícia Federal é meio tucana. Botou em cana 62 doleiros agora, véspera de eleição. A turma que ajuda não está podendo internar dinheiro no Brasil.''
Exibindo enorme domínio de cena, Jefferson, que entre 1979 e 1985 atuou como ''advogado do povo'' no programa ''O Povo na TV'', do SBT, deu um conselho ao ministro-chefe da Casa Civil: ''Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, que é o presidente Lula. Rápido, sai daí rápido, Zé. Para você não fazer mal a um homem bom, correto, que eu tenho orgulho de ter apertado a mão.''
Invertendo os papéis de acusado para acusador, e colocando vários membros do Conselho na defensiva, Jefferson disse que a mesada do governo aos parlamentares da base aliada era recebida e distribuída pelos presidentes do PL e do PP, Valdemar Costa Neto (SP) e Pedro Corrêa (PE), respectivamente, e pelos deputados Bispo Rodrigues (PL-RJ), Sandro Mabel (PL-GO), Pedro Henry (PP-MS) e José Janene (PP-PR).
Ressalvando que não eram todos os deputados do PL e do PP que recebiam mesada, Jefferson afirmou, no entanto, que todos os partidos têm suas campanhas financiadas por empresas privadas com contratos com estatais. ''Aqui todos sabem de onde vem o dinheiro da campanha: das empresas que na maioria das vezes mantêm relações com empresas públicas. Sempre foi assim. Todo mundo sabe de onde vêm os recursos. Precisamos abrir essa ferida.''


