Arquivo FolhaDesentendimentoJatene: ‘não dá para entender os critérios da equipe econômica’O cardiologista Adib Jatene criticou ontem a equipe econômica ao avaliar o orçamento deste ano para a saúde. ‘‘O poder não está frequentemente nas mãos dos que ocupam cargos’’, afirmou. ‘‘Está nas mãos dos que financiam as campanhas dos que ocupam os cargos e que, por coincidência, são os mesmos que sustentam a mídia e comandam o processo legislativo.’
Para Jatene, que está participando do 13º Congresso Mundial de Cardiologia, a prioridade do governo é a economia, não a saúde. ‘‘A área econômica não consegue entender os problemas da pobreza’’, disse. ‘‘E os médicos que lidam com a pobreza não conseguem entender as limitações da área econômica.’ Jatene afirmou que, em um primeiro momento, viu com bons olhos a indicação de um economista para a pasta da Saúde. ‘‘Tinha esperanças de que um economista conseguisse mobilizar os recursos necessários’’, afirmou. ‘‘Mas já estou preocupado.’
Segundo o médico, o orçamento da saúde para este ano, de R$ 20 bilhões, é proporcionalmente inferior aos R$ 15 bilhões de 1995, quando ele estava à frente do ministério e criou a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) justamente para suprir as necessidades orçamentárias da época.
‘‘Se, sobre o valor de 1995, somássemos a inflação e os R$ 7 bilhões extras da CPMF, era para termos este ano R$ 29 bilhões’’, afirmou. O médico lembrou ainda que, segundo a Constituição, o orçamento da saúde deve ser equivalente a 30% do orçamento da seguridade e, portanto, deveria chegar a R$ 30 bilhões. ‘‘Quando houve a crise asiática, o governo levantou R$ 20 bilhões para não tirar da bolsa’’, afirmou, lembrando que o governo demonstrou, dessa forma, que sua prioridade é a economia.
Jatene considera mentiras absurdas as críticas segundo as quais há muito dinheiro para a saúde sendo mal administrado. ‘‘Ao contrário, é uma gestão incrível’’, afirmou. ‘‘Fazer 360 milhões de consultas, 12 milhões de internações e 3 milhões de hemodiálises por ano com esse orçamento é incrível.’ Jatene citou como exemplo a França, que tem 56 milhões de habitantes e gasta US$ 100 bilhões por ano com saúde. ‘‘No Brasil, somos 160 milhões de pessoas e gastamos, somando os recursos públicos com os privados, US$ 40 bilhões.’

mockup