Brasília - O atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi o mais votado ontem pelos procuradores para permanecer no cargo por mais dois anos. A eleição representou uma demonstração de força de Janot, que tem sido criticado e alvo de promessas de retaliações de congressistas diante dos desdobramentos das investigações de políticos no esquema de corrupção da Petrobras. Janot recebeu 799 votos - 288 a mais (511) do que sua votação na eleição organizada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) em 2013 e que lhe garantiu sua indicação à presidência para o posto. O atual procurador-geral ficou à frente dos subprocuradores Mário Bonsaglia (462 votos) e Raquel Dodge (402 votos). O subprocurador-geral Carlos Frederico (217 votos), o mais crítico dos rivais de Janot, que apontava uma condução "midiática" da Lava Jato, acabou de fora da lista tríplice composta pela categoria. Ao todo, 983 procuradores votaram, sendo que cada um pode votar em três nomes.
A lista será encaminhada nos próximos dias à presidente Dilma Rousseff, que deve indicar ao Congresso quem assumirá o cargo. Ela não é obrigada a escolher os nomes sugeridos pela associação, mas esta é a tradição desde o governo Lula. A expectativa é de que Dilma opte pela recondução de Janot.
O nome escolhido por Dilma terá ainda que passar por uma sabatina e votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e, se aprovada, segue para análise do plenário da Casa. Dos 27 titulares da comissão, oito são investigados por suposta participação no esquema de corrupção da Petrobras. Se o indicado receber aval da CCJ, ele terá que passar por nova votação secreta no plenário, precisando pelo menos de 41 votos.
No Senado, há quem aposte em manobras para, se não derrubar uma eventual recondução de Janot, pelo menos atrapalhar. O mandato de Janot termina no dia 17 de setembro. Uma das saídas seria adiar a sabatina. Outra seria esvaziar a sessão para analisar o nome, sendo que o quórum baixo aumenta a chances de rejeição. O preside do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que ao lado de outros 12 colegas, é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido de Janot, nega disposição para dificultar a escolha do comando do Ministério Público Federal. Após ser incluído na lista de 35 congressistas investigados, Renan fez coro com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e acusou o procurador de agir politicamente na definição dos investigados. Nas últimas semanas, o senador diminuiu o tom dos ataques publicamente, numa estratégia para sair do foco.

COLLOR

Investigadores da Lava Jato, no entanto, apostam que, independente da sucessão, as primeiras denúncias contra os políticos devem ser enviadas ao STF ainda neste mês. Entre os alvos estariam Cunha e o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) que, segundo investigadores da Lava Jato, recebeu cerca de R$ 26 milhões em suposta propina do esquema de corrupção da Petrobras entre 2010 e 2014. O esquema vinculado ao congressista envolvia assessores do Senado, colaboradores, empresas em atividade e outras suspeitas de serem de fachada. As fontes dos repasses, segundo a Lava Jato, eram contratos de troca de bandeira de postos de combustível celebrado entre a Petrobras Distribuidora e a DVBR Derivados do Brasil. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras identificou operações suspeitas nas contas pessoais do senador de R$ 798 mil, entre 2011 e 2013 - depósitos que teriam sido feitos pelo doleiro Alberto Youssef, delator do esquema.
Para os investigadores, os três carros de luxo apreendidos do senador no mês passado - uma Ferrari, um Porsche e uma Lamborghini- foram comprados com operação de lavagem. Collor pediu ao STF para reavê-los. A reportagem apurou que a Procuradoria solicitou ao Supremo que mantenha os veículos apreendidos. Eles justificam que os carros podem ser produto de crime. Além disso, os automóveis estão em nome de empresas, portanto, ele não teria a legitimidade direta para requerer a devolução. Uma das empresas, a Água Branca, tem Collor como sócio. As investigações revelam que o Lamborghini, que custou R$ 3,2 milhões - sendo que R$ 1,2 milhão foi paga em dinheiro vivo - encontra-se com parcelas em atraso.

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