Com a pluralidade partidária do País, as principais linhas ideológicas da sociedade estariam bem representadas nos debates da Câmara Federal, das assembleias estaduais e câmaras de vereadores, se não houvesse o casuísmo político. Democrático, trabalhista, popular, republicano, progressista, comunista, ecológico, humanista, militarista e socialista são expressões que aparecem nas variadas combinações de letras dos partidos brasileiros. No entanto, a crise de representatividade só aumenta desde que os eleitores foram às ruas em 2013, cobrando mudanças que não vieram.
Mesmo com a insatisfação popular diante das graves denúncias de corrupção que a Operação Lava Jato revela, que respingam em praticamente todos os partidos, a reação da classe foi superficial, como a aprovação da minirreforma eleitoral, no ano passado. Entre as mudanças, está a emenda constitucional que permitiu aos parlamentares escolherem novas legendas sem perder o mandato por infidelidade, dentro da chamada janela partidária, encerrada há dez dias.
O advogado e professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Clodomiro José Bannwart, avalia que a brecha foi mais uma prova do distanciamento entre a regra e a prática. "A legislação que deveria servir de norte à prática política é, ela própria, a todo momento, subsumida à contingência e ao casuísmo da eleição seguinte. Isso fica evidenciado na emenda constitucional aprovada."
Ele explicou que as mudanças ocorrem com facilidade porque "os partidos não catalisam referenciais ideológicos que permitam aos eleitores encamparem, com clareza, os posicionamentos políticos quanto ao conteúdo programático ofertado". A relevância dos partidos é desconsiderada.

‘NA VEIA’
Na Câmara de Vereadores de Londrina, a janela foi fechada com sete mudanças, engrossando a bancada dos socialistas, ao menos, no nome. Entre as 19 cadeiras com o viés mais a esquerda estão PSB, PSD, PSC e PSDB, sem mencionar as legendas que se declaram ambiental, trabalhista e popular.
Vilson Bittencourt (do PSL para o PSB), afirmou que tem o socialismo "na veia", especialmente pela convicção religiosa. "Eu me considero bastante socialista, devido a minha caminhada dentro das pastorais da igreja católica, o que me fez ter uma visão bem socialista da realidade." Ele negou o casuísmo eleitoral na filiação.
O mais novo socialista cristão da Câmara, Péricles Deliberador (PSC, ex-PMN), avalia que no novo partido terá mais condições de exercer o seu trabalho junto à comunidade. "Alinhei minhas ideias com o PSC, que não tem aquele socialismo radical."
Péricles não vê incoerência entre o pensamento socialista que adotou e a sua posição sobre programas assistenciais. Ele chegou a dizer em uma sessão da Câmara que os beneficiários do Bolsa Família deveriam ser impedidos de votar, por suposta falta de independência. "Não sou contra quem recebe recursos do Bolsa Família, nem contra o programa social. Sou contra as pessoas que exploram o projeto, que é de Estado e não de governo. Acho que foi usado para compra de votos. Nunca quis dizer que pobre não sabe votar", justificou.
Completam as mudanças na Câmara de Londrina Sandra Graça (do PSD para o PRB); Junior dos Santos Rosa (do PSC para o PSD); Marcos Belinati (saiu do Pros e entrou no PP); Gaúcho Tamarrado (ex-PDT e agora DEM); além de Gustavo Richa (que era PHS, hoje no PSDB).

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