Gilberto Smaniotto
De Nova York
Especial para a Folha
Nova York, quinta-feira, uma da madrugada. A cena era cômica. Três homens encapuzados com sacos pretos de lixo entraram correndo num táxi na rua 46. Parecia parte de um filme ou uma brincadeira de Halloween fora de época, mas os assustados eram eles mesmos.
O dono do restaurante Via Brasil, Luiz Gomes, inventou a palhaçada, confirmou depois um funcionário. Usou dois dos seus garçons para ajudar o ex-doleiro curitibano Jamil Degan a sair do restaurante. Todos com sacos de lixo até a cintura entraram num taxi e sumiram na noite. A intenção foi driblar os jornalistas que passaram 10 dias querendo ouvir a versão dele no caso ‘‘Dossiê Cayman’’.
A papelada, considerada fria pelo procurador-geral da república Geraldo Brindeiro, reunia supostas provas da existência de uma empresa no paraíso fiscal do Caribe que seria do presidente Fernando Henrique Cardoso, do governador de São Paulo, Mário Covas, do ministro da Saúde, José Serra, e do ex-ministro das Comunicações Sérgio Motta, que morreu em abril. O grupo tucano teria US$ 368 milhões em contas. Degan foi acusado de ter tentado vender o dossiê para a oposição. Ele teria pedido US$ 4,5 milhões e mais tarde reduzido o valor para US$ 1,5 milhão. Nem Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem Ciro Gomes (PPS), se interessaram com medo de tudo ser uma armadilha.
Renan Antunes de Oliviera... Bêbado, Jamil Degan foge dos repórteres com um saco de lixo na cabeça: violência e ameaças O jantar A noite começou tranquila para Degan, que depois de passar quase duas semanas se escondendo, jantava descontraidamente no restaurante Via Brasil, numa mesa com vista para a rua, como se nada tivesse acontecido. Era véspera do feriado de Thanksgiving, dia de ação de graças. Aparentemente calmo, é o jeito dele, acompanhado de uma mulher que falava espanhol, nem imaginava que tinha jornalista no pedaço.
O sossêgo do ex-doleiro acabou com o primeiro flash. Da mesa de frente, Degan foi transferido rapidamente para o fundo do restaurante. Lá ficou rodeado por garçons. O dono do restaurante, amigo pessoal do ex-doleiro, era o mais preocupado em protegê-lo. Chegou até a chamar a polícia para tirar os jornalistas da frente do prédio.
Uma entrevista Passava das 11 da noite quando eu entrei no restaurante disposto a entrevistar o misterioso personagem. Nesta hora poucas mesas estavam ocupadas. Me ofereceram uma das primeiras, longe do alvo. Eu disse que queria perto do palco para ouvir melhor a música ao vivo. Assim, acabei do lado do homem tão procurado.
Degan estava lá alinhado, engravatado, como se estivesse pronto para começar mais um dia de trabalho. Aproveitei uma brechinha quando o deixaram sozinho. Puxar conversa com o ex-doleiro, não foi difícil, impossível foi conseguir ouvir uma resposta. Não sei se era estratégia ou efeito do vinho, segundo os garçons ele já estava na quarta garrafa do francês Beaujolais Village, de quase US$ 100 cada.
Fiz de conta que era apenas um brasileiro curioso. Ele foi gentil, mas tudo o que Degan fez foram murmúrios e gestos. Se eu entendi o recado, ele está chateado com o que aconteceu, cansado do assédio dos jornalistas, preocupado com a família e ainda tendo que comprar passagem aérea em aberto porque nunca sabe quando precisará partir. Se ele é o autor do dossiê? Não confirma. Se tem alguma relação com o pastor evangélico Caio Fábio, também envolvido na confusão, não explica.
Protegendo Degan O ‘‘bate-papo’’ não foi longo, tempo suficiente para a turminha do ‘‘não chega perto’’ partir para a ignorância. O dono do restaurante Luis Gomes, o Luisinho, tentou me expulsar aos berros. Sem argumento suficiente para o que estava fazendo, disse em alto e bom tom, que eu não teria dinheiro para pagar a conta e ainda ameaçou me dar um soco. Não me deixou ver o cardápio, e pior, cobrou US$ 10 por uma caipirinha que lá é vendida por $ 4,50. Até o motorista de táxi, que aguardava Degan, me mandou calar a boca. Já do lado de fora do restaurante, continuando a sessão baixaria, Luisinho chutou minha câmera. Alguns brasileiros que estavam de passagem por Nova York e outros que moram na cidade, se assustaram com a atitude do dono do Via Brasil e me ofereceram apoio.
Nada de entrevistas Degan disse para amigos que não tem nada a ver com o caso, que foi tudo um mal entendido e que só vai dar entrevistas quando o advogado dele achar que deve fazê-lo. Outros dizem que ele se calou porque tem ficha suja na polícia americana. Já foi preso nos Estados Unidos por tráfico de drogas.
Falar com alguém da família ficou impossível. Os telefones foram bloqueados para qualquer chamada. A filha Priscila, não pode ver jornalista por perto que já ameaça chamar a polícia. Ela saiu aos berros no meio da semana quando foi perguntada sobre como se sentia com as denúncias contra o seu pai.
Um amigo do ex-doleiro disse que Degan já enviou uma carta para o consulado brasileiro, desmentindo que tenha sido o autor do dossiê. A celebridade recente na história política brasileira, se estivesse no Brasil estaria com hora marcada para depor na Polícia Federal.
Equívoco Na semana passada o pastor Caio Fábio, escolhido pelos trambiqueiros para intermediar o caso, disse que o homem que ele pensava que era Degan não era Degan. Tudo não passou de um mal entendido. Mesmo com esta trapalhada geral inocentando o verdadeiro Degan, o ex-doleiro continuou escondido e não quis esclarecer a versão dos fatos como se tivesse culpa no cartório.
Segundo uma reportagem da Folha de Londrina/Folha do Paraná, um empresário que levantou a suspeita de que o ex-doleiro curitibano era a mesma pessoa que queria chantagear o presidente Fernando Henrique Cardoso, disse desconfiar da estória contada pelo pastor Caio Fábio para inocentar Degan. ‘‘Temos três possiblidades neste caso: ou o Degan mandou um colega se apresentar ao pastor como sendo ele, ou os dois armaram um esquema para encobrir o caso, ou ele é mesmo inocente’’.
Envolvido ou não, o ex-doleiro que viveu em Curitiba na década de 60 e mora nos Estados Unidos há mais de 20 anos, ficou confuso com a notoriedade. Tão confuso, que em vez de dar alguma explicação e tentar salvar sua cabeça, voltou a cena com ela enfiada num saco de lixo correndo de um lado para o outro na rua dos brasileiros em Nova York.

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