Curitiba - O presidente do Banco Itaú, Roberto Egydio Setúbal, disse ontem aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada pela Assembléia Legislativa que não recebeu nenhuma informação privilegiada para comprar o antigo Banestado do governo do Paraná. A CPI do Banestado questiona a fórmula do leilão de privatização, feito durante o governo Jaime Lerner (PFL), e alguns de seus integrantes sugerem a anulação do processo de venda, consumado em outubro de 2000.
Os deputados alegam que a carteira de crédito de R$ 2,7 bilhões foi avaliada em R$ 147 milhões. Os créditos tributários no valor de R$ 600 milhões foram avaliados em R$ 36 milhões. A empresa de consultoria norte-americana Goldman Sachs, especialista em comercialização de créditos podres (sem liquidez), teria feito um relatório com detalhes supostamente privilegiados do leilão do Banestado. ''Não houve informação privilegiada alguma. Todas as nossas informações, analisadas pela empresa norte-americana, estavam disponíveis para todos os bancos concorrentes'', garantiu Setúbal.
O presidente do Itaú foi questionado ainda sobre alguns detalhes do processo de privatização firmado com o governo passado. O mais polêmico diz respeito à manutenção das contas do governo do Estado nas agências do Itaú por cinco anos a contar da data de venda, prorrogáveis por mais cinco. Setúbal declarou que foram pagos entre R$ 80 milhões e R$ 90 milhões para que o governo Lerner renovasse a carteira de contas de todo o funcionalismo público. O dinheiro, segundo ele, foi repassado à Secretaria de Estado da Fazenda no segundo semestre de 2002, durante a gestão do então secretário Ingo Hubert.
Vários deputados ficaram alarmados com as declarações do presidente do Itaú. O deputado estadual Mário Sérgio Bradock (PMDB) chegou a insinuar que o dinheiro declarado como pago por Setúbal não teria entrado no caixa do governo do Paraná. A suspeita levantada pelo deputado e demais integrantes da CPI foi dissipada à tarde, depois de o governo Roberto Requião (PMDB) fazer uma pesquisa na contabilidade oficial.
O valor apontado por Setúbal não entrou como dinheiro nos cofres públicos. Na verdade, foi um desconto de R$ 80 milhões, resultado de uma negociação firmada entre o governo Lerner e o banco em junho de 2002. Para validar o processo de privatização do Banestado, o governo do Paraná assumiu em 2000 um mico de R$ 540 milhões em títulos podres. A dívida estava caucionada com ações da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Com medo de perder o controle acionário da estatal, para o Itaú, o governo Lerner firmou um acordo parcelando em 30 vezes o mico de R$ 540 milhões. O desconto de R$ 80 milhões, tratado por Setúbal como um pagamento à prorrogação por mais cinco anos do Itaú como banco oficial, foi nada mais que um dos itens desta negociação.
Transação similar para renovação das contas do governo com o Itaú foi realizada com a administração do Rio de Janeiro, onde o Itaú comprou em leilão o Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj). O valor negociado com o governo carioca seja como desconto, seja como repasse , nesse caso, foi superior, cerca de R$ 186 milhões, conforme informações de Setúbal. ''O Banerj era maior, tinha mais funcionários. Manter as contas do funcionalismo público do Rio de Janeiro era mais interessante para nós'', justificou Setúbal, sob o protesto dos bancários que estavam presentes na sessão.(Com Leandro Donatti)

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