Itamaraty avalia o resultado da visita
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 1997
Agência Estado Brasília 
Arquivo FolhaDiplomaciaPresidente dos EUA, Bill Clinton, considerado apaziguador: Apoio importantíssimo ao Mercosul O reconhecimento do papel importante que o Mercosul tem na promoção do comércio regional e na construção da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca), é considerado pelo Ministério das Relações Exteriores como o principal resultado da visita do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, ao País, na semana passada. Do ponto de vista político, o apoio de Clinton ao Mercosul foi importantíssimo, disse o subsecretário-geral para Assuntos Econômicos do Itamaraty, embaixador José Botafogo Gonçalves.
Para o embaixador, Clinton fez uma correção de rumos na orientação que vinha sendo imprimida à diplomacia norte-americana por altos funcionários da administração, como a representante comercial da Casa Branca, Charlene Barshefsky, que chegou publicamente a classificar o Mercosul - um projeto prioritário da política externa brasileira - como unidadezinha de comércio e a considerá-lo nocivo aos interesses dos Estados Unidos. O Mercosul foi até acusado de ser um clube de países atrasados, mas o presidente Clinton encerrou a polêmica, disse Gonçalves.
Na visão do Itamaraty, a posição assumida por Clinton é também o reconhecimento da tese brasileira de que a Alca poderá ser criada a partir do fortalecimento e consolidação progressiva dos diversos blocos regionais de comércio, como o Mercosul e o Pacto Andino (que reúne Venezuela, Colômbia, Peru e Equador). Até agora, a estratégia dos building blocks, como é conhecida no jargão diplomático, não recebia quase nenhuma atenção dos negociadores americanos nas reuniões para discussão da Alca.
A nova postura de Clinton em relação ao comércio regional também dá uma indicação mais clara de que o Mercosul continuará existindo como um espaço próprio, mesmo depois que a Alca começar a ser instalada, a partir de 2005. Isso vai depender, contudo, dos progressos que Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai conseguirem no aprofundamento do bloco regional, cujos objetivos são mais amplos do que o simples estabelecimento de uma zona de livre comércio, como é o caso da Alca.
Botafogo Gonçalves lembrou que, como projeto de mercado comum, o Mercosul tem na agenda um amplo espaço para negociações em áreas como compras governamentais, transporte aéreo, serviços de engenharia, livre movimentação de trabalhadores e harmonização de políticas econômicas, que não serão abrangidas pela Alca. Mesmo depois da criação da Alca, que deve eliminar alíquotas de importação para produtos dos países americanos, o Mercosul continuará praticando uma tarifa externa comum (TEC) no comércio com Ásia, Europa e África.
Segundo ele, a novidade da semana passada foi o reconhecimento de Clinton de que nenhum projeto de integração será possível sem o engajamento da sociedade e do setor privado dos países envolvidos. Os empresários do Brasil, da Argentina e dos demais países da região é que vão ser os agentes da integração, e os seus interesses estão no fortalecimento do Mercosul, afirmou.
Para Botafogo Gonçalves, o entralaçamento dos interesses empresariais da região são também a garantia de que Brasil e Argentina, as duas maiores economias do Mercosul, não vão se dividir na defesa do bloco.


