Itamar se licencia para depor no Senado
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terça-feira, 22 de agosto de 2000
Daniela Nahass Agência Folha De São Paulo 
O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, vai se licenciar do cargo para se dedicar exclusivamente ao rastreamento de todos os atos assinados por ele enquanto estava na Presidência. Vou rastrear tudo. Eu não sei o que eles fizeram nas minhas costas, disse Itamar Franco, referindo-se ao decreto assinado por ele no último dia do seu governo liberando R$ 800 mil para a obra irregular do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo.
Durante 15 dias Itamar pretende rastrear todos os órgãos da Presidência, especificamente os ministérios da Fazenda e do Planejamento, a Secretaria do Tesouro, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a Caixa Econômica Federal.
Itamar diz que está desconfiado de atos de corrupção durante o seu governo. Esse rastreamento será penoso por ver tanta ingratidão, tanta bandalheira, tanta sujeira que pode ter sido feita na minha época, afirmou. Vou ter de vencer alguma máfia, mas provocado que fui quero saber tudo, não apenas sobre o decreto assinado por mim.
O decreto foi divulgado pelo ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) e pelo líder do governo no Congresso, Arthur Virgílio (PSDB-AM). Ontem, Itamar Franco pediu ao presidente da subcomissão, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), o adiamento do seu depoimento para o dia 17 de outubro. Inicialmente a exposição estava marcada para 12 de setembro. Ele afirmou que está encontrando dificuldades para ter acesso a certos documentos em alguns órgãos federais que não quis nomear. O presidente não está me deixando caminhar, afirmou.
Itamar afirmou que vai recorrer à Constituição e que, se for necessário, vai entrar com um pedido na Justiça (habeas data). O governador disse que, durante a sua investigação, vai se dedicar com atenção ao Ministério da Fazenda, principalmente no período de gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso. O que aconteceu no Ministério da Fazenda quando FHC assumiu a pasta? Eu quero ver. Não sei.
O governador de Minas também criticou o ministro Raul Jungmann (Desenvolvimento Agrário), que não o recebeu para uma audiência anteontem. O ministro afirmou que cancelou a audiência porque o governador disse que no governo existia corrupção endêmica.
O político mineiro reafirmou que existe no governo federal o que chama de corrupção endêmica. Ele citou dois fatos que, na sua avaliação, seriam exemplos disso: o episódio (não esclarecido) das denúncias de compra de votos de parlamentares para votarem a favor da aprovação da emenda da reeleição presidencial e o processo de privatização das empresas de telecomunicações. O presidente não está me deixando caminhar (na coleta de informações em órgãos federais), mas vou obter, goste ele ou não, as informações de que preciso, concluiu o governador.
O ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, divulgou ontem uma nota oficial para responder às declarações de Itamar e defender o Palácio do Planalto. O Sr. Itamar Franco ainda não entendeu que foi eleito governador para administrar o Estado, e não para usar o governo mineiro como instrumento de sua rixa pessoal, diz o documento. Veiga diz ainda que, ao invés de o governador se afastar da administração, ele deveria trabalhar para que Minas Gerais possa se inserir na quadra de desenvolvimento que o País já vive. De acordo com o ministro, Minas Gerais estaria à margem desse desenvolvimento, exatamente pelas omissões e pelos atos circenses do seu atual governo.


