Curitiba - O ex-ministro José Eduardo de Andrade Vieira fez revelações inusitadas ontem, durante a reunião semanal do secretariado. Ele disse que foi convidado pelo ex-presidente Itamar Franco (PMDB) para o cargo de ministro da Fazenda, logo após a exoneração de Gustavo Krause. Na época, José Eduardo ainda ocupava o Ministério de Indústria e Comércio e fazia parte do Conselho de Equipe Econômica de Itamar. ''Eu fui chamado à noite para conversar com o Itamar que acabou me fazendo a proposta. Como era banqueiro, argumentei que os setores de esquerda iriam acusá-lo de pôr a raposa para cuidar das uvas e disse que ele deveria fazer a proposta para o Fernando Henrique, em quem ele também confiava'', relatou Vieira.
Itamar já tinha feito o convite informal a Fernando Henrique Cardoso, que não teria aceitado. Após as dicas de José Eduardo, ele teria reformulado o convite de forma oficial. ''Pude sair de madrugada da presença do Itamar, depois que Fernando Henrique resolveu aceitar o cargo'', disse.
Outro episódio contado pelo ex-ministro teve como protagonista o então advogado Geral da União, José de Castro, que tinha sido prefeito de Juiz de Fora (MG) e gostava de demonstrar intimidade com o presidente. Na oportunidade, todos os contratados na administração do ex-presidente Fernando Collor de Mello (PRP) estavam sendo exonerados. José Eduardo conservava um homem de confiança no Ministério de Indústria e Comércio e que teria tido um cargo no terceiro escalão do presidente cassado. Era Antonio Maciel Neto (hoje presidente da Ford). ''Em abril de 93 fui surpreendido por uma ligação do José de Castro dizendo que estava com o Itamar e que estava esperando em poucas horas a exoneração do meu secretário-executivo (Maciel Neto). Ele foi taxativo. Fiquei irritado. Pensei em enviar minha exoneração. Quinze minutos depois, menos nervoso, liguei para o presidente e perguntei se José de Castro estava lá. Em resumo, os dois não tinham estado juntos naquela manhã. Acho que José de Castro espera até hoje a exoneração do meu secretário-executivo'', brincou. Quem teria sido exonerado em seguida (dois meses depois), foi o próprio José de Castro que acabou indo para a presidência da Light do Rio de Janeiro.
Até mesmo Jaime Lerner (PSB) foi relembrado nas histórias narradas por José Eduardo de Andrade Vieira, que contou que apoiou a candidatura dele à Prefeitura de Curitiba em 1989. Para apoiar, ele teria pedido apenas a liberação da inauguração do prédio do Palácio Avenida, do Bamerindus, e a retirada de uma barraquinha de café que pertencia a um irmão do deputado estadual Anibal Khury (morto em 1999) da porta de entrada do prédio, que seria a sede do banco, pertencente à família Andrade Vieira. Depois de eleito, Lerner teria evitado cumprir a promessa. Colocou alguns empecilhos e exigiu que uma nova barraquinha fosse construída pelo próprio Bamerindus.
Um empreiteiro foi contratado para fazer a construção do quiosque em menos de 24 horas. Começaria na sexta-feira à tarde, para concluir no sábado. José Eduardo diz que sabia que o então prefeito iria tentar barrar a obra. Tanto que dois fiscais do município estiveram no sábado pela manhã embargando a construção. Orientados por Vieira, os operários voltaram ao trabalho assim que os fiscais viraram as costas. Terminaram o novo quiosque e derrubaram o antigo.
No domingo, pela manhã, José Eduardo, Khury e convidados inauguraram com direito a muitas fotos a barraquinha de café. Segunda-feira, Lerner teria mandado destruir o novo quiosque imaginando que o antigo estava montada ainda. ''Quando ele (Lerner) descobriu que eu tinha mandado desmanchar o velho, ficou irritado e disse que iria me processar. Falei que tinha inaugurado o novo no domingo e mandei as fotos para ele. Resumo: nunca mais a barraquinha foi construída. Não sei como ele (Lerner) resolveu a situação''. (Luciana Pombo e Adriana De Cunto)

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