Itamar não queria voltar ao Brasil para participar
O ex-presidente Itamar Franco (foto) participa da convenção do PMDB a contragosto. Ele desfaz, inclusive, acerto que fez com seu sucessor, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em janeiro, quando anunciou que era pré-candidato à Presidência da República. Itamar preferia que o PMDB adiasse a decisão de ter candidato próprio ou apoiar FHC. Para ele, o cenário eleitoral estará mais definido em junho, quando então poderia decidir se concorria à Presidência ou ao governo de Minas Gerais.
O presidente do partido, Paes de Andrade (CE), hoje o maior cabo eleitoral de Itamar, convenceu-o a aceitar a definição agora. Itamar chegou a escrever uma carta a Paes dizendo que o PMDB só deveria discutir o apoio a FHC depois de abril. Mesmo assim, Paes manteve a decisão de realizar a convenção agora. Pressionado, Itamar deixou em janeiro a representação do Brasil na OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington, entregando o cargo a FHC.
Na conversa com o presidente, no Palácio da Alvorada, Itamar disse que, apesar de ter sido lançado extra-oficialmente candidato do PMDB à Presidência, não faria nenhum movimento para defender essa posição - que o colocaria em confronto com o governo. Após divulgar uma carta em que colocava o seu nome à disposição do PMDB, Itamar chegou a anunciar que não viria à convenção de hoje para defender sua candidatura. Disse que permaneceria em Washington, cuidando da OEA.
A declaração de Itamar foi interpretada negativamente dentro do partido - demonstrava que ele não tinha segurança de sua real intenção e que a candidatura à Presidência poderia ser um blefe. Quando embarcava para os Estados Unidos, já no aeroporto de Brasília, o ex-presidente voltou atrás e anunciou a amigos que participaria da convenção. Com a continuidade das pressões no partido, Itamar ligou para alguns convencionais com papel-chave no PMDB, como o senador Ronaldo Cunha Lima (PB), que tem cargos no governo, mas ainda assim defende candidatura própria para seus correligionários.
O empenho do ex-presidente não foi suficiente. O governador Paulo Afonso Vieira (SC), por exemplo, deu declarações favoráveis à candidatura própria, mas acrescentou que não sentia firmeza na candidatura de Itamar. Paulo Afonso só anunciou seu apoio à candidatura própria na semana retrasada, apesar de assinado o documento de governadores que declarava apoio a FHC.
A proximidade da convenção criou um clima de hostilidade a Itamar. Como o Itamar será candidato sendo amiguinho do presidente Fernando Henrique? Eu não acredito em disputa entre amigos, disse o líder do PMDB, deputado Geddel Vieira Lima (BA). Quando Paes anunciou que Itamar faria um discurso forte na convenção, o líder do PMDB no Senado, Jader Barbalho (PA), afirmou que rebateria da tribuna. Lembraria que Itamar foi vice de Fernando Collor numa disputa com Ulysses Guimarães, o principal líder da história do PMDB, e perguntaria por que ele se filiou ao partido no último dia possível. Itamar também foi criticado pelos líderes governistas pelo fato de ter ficado na OEA até janeiro. Jader e Geddel chegaram a chamar Itamar de empregado de FHC. Desde anteontem, quando chegou ao Brasil, Itamar evitou se encontrar com peemedebistas. (A.F.)





