Itamar e ACM não vão dar trégua a FHC
O presidente Fernando Henrique Cardoso alegrou o PMDB, o PSDB e os eleitores tucanos ao partir para a ofensiva e demitir ministros, entrando pessoalmente na artilharia em defesa da honradez da sua administração. Mas interlocutores do próprio governo avaliam que não há motivos para comemorar. O Palácio do Planalto ainda tem seus críticos mais ruidosos alojados nos dois mais importantes partidos de sua base de sustentação no Congresso e começa a semana enfrentando um debate sobre o desmonte de uma oligarquia política que pode pôr Fernando Henrique em apuros. Em pauta, a presença incômoda do governador de Minas, Itamar Franco (PMDB), pré-candidato à corrida presidencial de 2002, e a pressão de aliados peemedebistas e tucanos para que o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) seja não apenas despejado do Executivo federal, mas atingido na estrutura oligárquica de poder que ele criou e mantém na Bahia.
Ninguém tem dúvidas de que nem Itamar nem ACM, agora fortalecido dentro do PFL, darão trégua ao governo na cruzada de ambos contra a corrupção na administração pública. A movimentação de Itamar rumo ao PMDB e sua troca de cartas com ACM assustou, e muito, os tucanos do governo e do Congresso. Dirigentes do PSDB avaliam que não foi por acaso que o governador voltou ao partido justamente quando o grupo que está no comando - e ao qual ele se opõe - chegou ao topo do poder. Por esse raciocínio, o presidente peemedebista, senador Jader Barbalho (PA), chega desgastado à presidência do Senado e, a cada degrau que ele eventualmente descer daqui em diante, Itamar subirá.
Não é sem razão, porém, que não houve protestos contra a volta do governador mineiro ao PMDB. A cúpula do partido argumenta, junto ao presidente, que é mais fácil manter Itamar sob controle com ele dentro do partido. Uma tese simpática, quando o gesto do governador em favor da luta anticorrupção do senador baiano foi interpretada como uma aliança para derrubar o governo ou, na melhor hipótese, como uma forma de Itamar pôr o pé no PFL, de olho em 2002. Mas há, entre os colaboradores mais próximos de Fernando Henrique, quem acredite que a simples presença de Itamar no PMDB tenha o efeito de chantagem permanente sobre o Planalto, forçando o apoio a Jader e seu grupo para evitar a ascensão do governador.
O debate travado atualmente por setores do governo dá mais atenção ao ex-presidente do Senado, não a Itamar. É fato que tomar o poder na Bahia não é uma preocupação do Planalto e, sim, dos líderes do PMDB, deputado Geddel Vieira Lima (BA), e do PSDB, Jutahy Magalhães (BA), que já decidiram enfrentar o senador juntos em 2002. A meta do governo é inflação baixa e crescimento econômico em alta, não é derrotar ACM, resume um ministro, ao salientar que, a despeito da importância da Bahia, o governo está mais preocupado com sua imagem no exterior e com os investidores estrangeiros.
Esse ministro está convencido de que a candidatura Itamar, assim como a de Ciro Gomes, do PPS, não terão futuro em um cenário de sucesso econômico e avanços sociais do governo. Mais do que isso, setores do Planalto acreditam que ACM selou um recuo, quando fez o acerto interno no PFL sob o comando do vice-presidente Marco Maciel. Alguns poucos baianos vão ficar com ACM em algumas votações, mas a maioria vai ficar conosco e ao governo interessa ter o PFL a seu lado, prevê o ministro, em defesa da preservação do poder local do cacique baiano, até para manter seu interesse de compor com o Planalto.
Não é o que pensa o grupo palaciano que quer que Fernando Henrique reflita melhor sobre a necessidade do desmonte do poder oligárquico do senador baiano. Os representantes desse grupo defendem a tese de que não se enfraquece uma oligarquia suprimindo seu quinhão de poder nacional. Eles ponderam que, com o despejo dos baianos do Ministério, quem sai no prejuízo é a Bahia, sem defesa além de seu protetor, não ACM. Tirar os ministérios do senador Antonio Carlos, mantendo no Estado outros canais de intermediação de interesses com o poder central, só o fortalece, argumenta um peemedebista.
O PFL, que não quer abrir mão de um cacique que comanda um colégio eleitoral com mais de 3 milhões de votos, já está com o discurso afinado para entrar no debate da oligarquia. O partido vai defender que Fernando Henrique escolha outros interlocutores no PFL para tratar dos interesses da Bahia. A idéia é ignorar ACM, sem tirar os cargos federais dos carlistas, porque o partido não pode pagar a conta da briga pessoal do senador com o Planalto. A cúpula pefelista ligada a Bornhausen e Maciel vai sugerir que o presidente passe a operar com o senador Paulo Souto (PFL-BA), que tem se mantido distante das brigas do ex-presidente do Senado. Uma boa providência, já que tucanos e peemedebistas pensam em oferecer a legenda a Souto, exatamente para que ele dispute o governo do Estado em 2002, contra ACM.





