Em seu primeiro encontro com o diretório nacional do PMDB ontem em Brasília, o ex-presidente Itamar Franco, eleito governador de Minas Gerais, e seu vice, Newton Cardoso, levaram um recado muito claro aos governistas do partido: o PMDB está acima do governo federal e deve manter uma posição de independência se tiver mesmo um projeto próprio de poder. Isso quer dizer, explicou Newton, fortalecer a unidade do partido, sem contudo apoiar incondicionalmente as iniciativas do presidente Fernando Henrique, como o programa de estabilidade fiscal anunciado na semana passada, qualificado por ambos como ‘‘recessivo’’.
‘‘Nós não podemos concordar sem saber ao certo para onde vai se levar o País’’, disse o ex-presidente ao desembarcar em Brasília, que suavizou o discurso e evitou fazer ataques diretos ao pacote. ‘‘Nos últimos quatro anos, o Brasil só empobreceu’’, acrescentou. ‘‘Se o PMDB pensar realmente em ser governo e se tiver um projeto próprio, precisa ter uma linguagem só’’, emendou o vice. Newton Cardoso frisou que a partir de agora a voz do ex-presidente terá de ser ouvida pelo partido, pois ele saiu ‘‘fortalecido’’ das urnas. O vice-governador também mostrou um certo desapego aos cargos controlados pelo PMDB na administração pública. ‘‘Do que nos serve o ministério da Justiça?’’, questionou. ‘‘Foi um castigo para o PMDB, é sempre muito criticado’’, frisou.
Em sua chegada, o ex-presidente esquivou-se de comentar o pacote do governo, mas reafirmou que as medidas levarão o país ‘‘a recessão e ao desemprego inexoravelmente’’.
Limitou-se a reclamar da situação de Minas, cujo governo lhe será entregue com uma dívida de R$ 21 bilhões, um déficit mensal de R$ 60 milhões e gastos de 76% de sua receita com o pagamento do funcionalismo público. ‘‘O Estado está em situação pré-falimentar’’, disse o futuro governador, que pretende equilibrar as finanças sem demitir servidores.
Foi o único ponto em que discordou frontalmente do seu vice, para quem as regras da Lei Camata - que obriga os Estados a gastarem no máximo 60% de suas receitas com o pagamento de pessoal - devem ser cumpridas à risca. Newton Cardoso comentou que o governo de Minas também deve se enquadrar e que ‘‘sobra gente’’ em seus quadros. ‘‘Lá temos mais de 3 mil cargos de confiança, tem muita gente sobrando’’. Para ele, é possível fazer o ajuste do funcionalismo de ‘‘maneira inteligente’’, com demissões incentivadas, que garantam a ‘‘sobrevivência’’ do funcionário dispensado.
Itamar passou a tarde reunido com assessores e políticos para formalizar uma proposta alternativa ao pacote apresentado pelo governo na semana passada, cujo teor negou-se a divulgar. As sugestões foram levadas à reunião com o diretório do partido, onde também foi discutida a performance do PMDB nas eleições.
Newton atacou o reajuste na CPMF, de 0,20% para 0,38%. ‘‘O governo fez isso para brincar com os empresários; eles não vão aguentar’’, frisou. E citou o caso mineiro, onde ‘‘sobrou’’ apenas 16 das 111 empresas privadas de quatro anos atrás. Newton também rechaçou a prorrogação e ampliação da retenção do FEF, cujas reações contrárias forçou o governo a protelar a discussão. ‘‘Isso vai acabar com Estados e municípios’’.

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