O governador de Minas, Itamar Franco (PMDB), só vai negociar com o governo federal sobre a moratória do Estado, decretada no meio da semana passada, se for procurado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi o que Itamar disse ao presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Stefan Salej, em encontro ontem à tarde no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, para discutir o impacto da suspensão do pagamento das dívidas estaduais por 90 dias nas economias mineira e nacional.
Salej, cuja entidade divulgou nota, há poucos dias, condenando a moratória, disse estar confiante no entendimento que ponha fim ao impasse entre o Estado e a União. ‘‘São duas pessoas (Itamar e Fernando Henrique) que formam sua vida política com base no diálogo; o diálogo é o nome de Minas, e certamente vão encontrar caminho para pôr fim a este impasse’’, disse. ‘‘Esse entendimento vai ser alcançado dentro da lei, dentro da situação financeira do Estado e dentro da necessidade de crescimento de Minas Gerais’’, completou.
Segundo um integrante da comissão da Fiemg que acompanhou Salej no encontro, Itamar foi claro ao afirmar que só aceita debater a possibilidade de cancelamento da moratória e a situação junto ao governo federal das finanças mineiras - que, segundo ele, estão em situação caótica - se for procurado pelo presidente. ‘‘Ele falou que quem tem que tomar a iniciativa para a conversa é quem está no alto’’, garantiu o representante da entidade.
Itamar, aparentemente alheio ao agravamento da crise e às mudanças na economia, ocorridas ontem, não manteve qualquer contato com a imprensa. Hoje, ele fará pronunciamento durante a Assembléia Geral Extraordinária de acionistas da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). A Assembléia serve para eleger os novos integrantes da diretoria e do Conselho Administrativo da estatal, que, durante o governo de Eduardo Azeredo, teve 33% de seu capital votante vendido a um grupo estrangeiro.
Uma das promessas de campanha de Itamar foi a de questionar judicialmente e, caso se prove irregularidades, cancelar a operação de transferência das ações da Cemig. O novo presidente da estatal, indicado por Itamar, deve ser o atual vice-presidente da BR Distribuidora, Djalma Moraes - o mesmo que, quando o governador foi presidente da República, ocupou a chefia da Telebras. Na diretoria, o governador indica cinco dos oito cargos principais. Os três restantes são dados ao grupo que adquiriu parte do controle da empresa.
O secretário da Casa Civil, Henrique Hargreaves, que esteve reunido com o govenador Itamar Franco durante todo o dia de ontem, disse que não faria comentários aos jornalistas. ‘‘Da última vez que falei alguma coisa, a Bolsa de Tóquio caiu’’, disse, irônico. Hargreaves se referia à informação, atribuída a ele e depois desmentida, de que o governo mineiro não honraria também seus compromissos externos, em razão da moratória. Já o secretário estadual de Assuntos Internacionais, Asdrubal Olysseas, insistiu em que a crise financeira vivida pelo País não tem relação com a moratória de Minas. ‘‘Houve um exagero da imprensa’’, afirmou.
Circulou ontem, no Palácio da Liberdade, a informação de que o governo de Minas deve entrar, nos próximos dias, com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal. O objetivo seria tentar impedir que o governo federal retenha recursos do FPE e do ICMS como forma de garantir o pagamento das parcelas da dívida junto à União, de cerca de R$ 18,5 bilhões. O mandado de segurança, com pedido de liminar, estaria sendo elaborado pela procuradora-geral do Estado, Mizabel Derzi, e seria acompanhado, possivelmente, de uma ação de inconstitucionalidade contra o governo federal. Até o final da tarde, porém, isso não havia sido confirmado oficialmente.

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