Isabel, 41 anos, analfabeta, nunca votou
Aos 41 anos e analfabeta, Isabel Esmiliano nunca votou e já se passaram cinco oportunidades para escolher governador, senadores e deputados e três para eleger presidentes. Nestas eleições novamente ficará de fora. Isabel confessa: nem sabe como votar. ''Pode ser no dedão?'', questiona, apontando o polegar para cima, sua única rúbrica.
''Eu sei que (o título) é importante para as nossas vidas. Meu bairro (Assentamento Campo Verde), não tem água e nem esgoto. Se preciso de uma consulta no posto tenho que ir a pé até o Jardim Bandeirantes'', reclama Isabel. A filha, Cleusa Esmeliano Pinto, completará 19 anos neste mês e também não tirou o título. Aliás, tal como a mãe, não tem carteira de identidade e nem o Cadastro de Pessoa Física (CPF).
A situação de mãe e filha pode ser considerada parte da causa e principalmente a consequência da ''democracia precária'' instalada no Brasil, como define a professora e doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Maria José de Rezende.
A exclusão econômica e a falta de perspectiva de inserção para estas pessoas, como o direito à saúde, saneamento e principalmente o emprego, segundo a professora, levam a um desinteresse pela vida pública e consequente ação política para mudar. ''Eles (pobres) se excluem da democracia e isso impede que acionem os mecanismos de mudanças, como o voto'', avalia. ''Ao chegar aos 40 anos sem o título, provavelmente essa pessoa não vai mais fazê-lo.''
Para Maria José, a democracia política passa pela construção de uma democracia social e isso pressupõe uma inserção. ''Era o questionamento que se fazia já na década de 70: 'será que não estaríamos criando uma democracia política que vira as costas para a social?''
E o resgate da cidadania deste contingente de miseráveis não se faz apenas com a distribuição de títulos eleitorais. Para um chefe de família que tenta sobreviver com um quarto de salário mínimo, ou seja, na pobreza absoluta, a saída passa de imediato por uma formação profissional, a garantia de emprego e posterior inclusão no sistema social. Caso contrário, adverte Maria José, é como se a política fosse processada fora do universo deste cidadão. ''Ele próprio acha que não faz diferença e democracia assim não se constitui.''





