BRASÍLIA - Motivos de irritação o presidente Fernando Henrique Cardoso tem de sobra - desde o fracasso do leilão da Vale até a derrota da reforma administrativa - mas sua reação não combina com o figurino de intelectual forjado no debate, habituado à crítica, elegante nas maneiras e transbordante de fair-play. ‘‘Ele não está habituado a viver em situações que sejam menos do que excelentes’’, opina um dos assessores de marketing regularmente ouvidos nos Palácio do Planalto. De fato, desde abril do ano passado o governo não encontrava tantas frentes de atrito como agora.
Na terça-feira, 29 de abril, enquanto polícia e manifestantes trocavam bombas e pedras em frente à Bolsa de Valores do Rio, o presidente vivia, em Brasília, o pior dia de seu mandato. Sem tirar os olhos do computador, que lhe trazia em tempo real as más notícias sobre o adiamento do leilão da Vale do Rio Doce, ele recebeu o telefonema de um político do PMDB, reivindicando uma vaga no Ministério. Ouviu muito, falou pouco e bateu o telefone com força, sem se importar com a presença de visitas no gabinete.
Não era sombra do presidente mais bem-humorado que o País conheceu, desde os tempos de Juscelino Kubitschek. ‘‘Ele está estressado’’, definiu um amigo. Pode ser, mas a irritação de Fernando Henrique vinha de antes, desde quando a marcha dos sem-terra chegou aos limites de Brasília, no dia 14, preparando a invasão da Praça dos Três Poderes. Naquele dia, o Planalto soltou nota oficial considerando ‘‘falsa, desabonadora para o Congresso e insultuosa para o governo’’ a acusação, feita em documento da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de que deputados foram corrompidos para aprovar a reeleição.
Depois da nota, numa série de discursos e entrevistas, Fernando Henrique foi subindo o tom do revide aos adversários. ‘‘É a onda do desespero, são surfistas, náufragos que pegam a bóia’’, disse, no dia 18, sobre os manifestantes e partidos de esquerda que engrossaram a marcha dos sem-terra. No dia 24, no Canadá, disse que a votação da reforma administrativa era ‘‘ranheta’’ e seu atraso, no Congresso, ‘‘vergonhoso’’ para o País. Bateu de novo nos bispos: ‘‘O que a CNBB tem a ver com a Vale?
De volta ao Brasil, numa entrevista ao deputado Adroaldo Streck (PSDB-RS), pela rádio Guaíba de Porto Alegre, distribuiu pancadas: ‘‘Fazem uma gritaria no Congresso, mas estão é atrapalhando o Brasil’’; ‘‘O meu governo se aguenta sem a reforma’’; ‘‘Nem ouço mais os discursos no Congresso, porque é tanta coisa insensata que se diz sobre as reformas... Nos dias seguintes, iria reclamar do ‘‘uso ideológico que estão fazendo da Justiça’’ e chegou ao máximo no dia 30, quando chamou de ‘‘ignorante’’ quem critica sua política social. ‘‘Nós somos o país do carnaval, estamos habituados com o barulho’’.
Em defesa do presidente, o ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause, do PFL, atribui a alta temperatura a uma precipitação do debate eleitoral de 1998. ‘‘Um presidente candidato fica sempre mais exposto’’, resume Krause. ‘‘Todos os seus atos serão recebidos, pelos adversários, como gestos de palanque’’. Krause não completa o raciocínio, mas a conclusão é óbvia: Fernando Henrique também estaria reagindo como candidato, condição que assumiu no dia em que a Câmara aprovou, em primeiro turno, a emenda da reeleição. Era fevereiro, mês do carnaval.

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