Edinelson Alves
De Brasília
Especial para a Folha
As investigações que a CPI do Narcotráfico vão fazer no Paraná, a partir de terça-feira, servirão como uma espécie de termômetro. A preocupação de alguns parlamentares com os próximos passos da comissão deixou de ser apenas uma conversa de bastidor no Congresso e se transformou em discurso inflamado no plenário. Os oposicionistas Aloizio Mercadante (PT-SP) e Miro Teixeira (PDT-RJ) alertaram o colégio de líderes para o risco de banalização dos trabalhos justamente na fase decisiva das investigações. Ao todo, 12 deputados estarão no Estado a partir de terça-feira para colher depoimentos (veja quadro).
Mercadante afirmou que a CPI deve ter todo apoio para que o combate ao crime organizado possa continuar sendo feito com todo rigor em outros Estados, e citou o caso do Paraná, Espiríto Santo, Acre e principalmente o Rio de Janeiro onde o jogo do bicho há anos está associado com o tráfico de drogas e a ação de quadrilhas que dominam em algumas regiões daquela cidade.
Ao fazer uma análise sobre os trabalhos das CPIs dos Medicamentos e do Narcotráfico, Aloizio Mercadante ressaltou a necessidade de serem criadas estratégias de trabalho e uma definição sobre o futuro das duas comissões pelo Colégio de Líderes. Segundo ele, pela importância dos temas que aportam à população, estas duas CPIs devem aprofundar suas investigações. Sobre a dos Medicamentos, Mercadante destacou que há indícios claros da formação de cartel de 21 laboratórios farmacêuticos.
‘‘Não vejo como a CPI poderá avançar em seu trabalho e proteger a economia popular, sem enfrentar esse cartel e o poder econômico’’, afirmou. Na avaliação do deputado, a CPI tem que quebrar o sigilo bancário destes laboratórios para realizar um levantamento completo das informações em todo o sistema financeiro nacional. ‘‘Vejo com preocupação se forem encerrados os trabalhos da CPI neste momento’’, disse o deputado, que chamou a atenção para o esvaziamento do Congresso, por causa das eleições.
Quanto à CPI do Narcotráfico, o deputado acredita que ela possa avançar para concluir os trabalhos sobre o crime organizado no Acre e em Alagoas e, também, continuar sua investigação sobre o plantio de maconha em Pernambuco. ‘‘Ela pode avançar sobre o jogo do bicho e narcotráfico no Rio de Janeiro e, no Espírito Santo, continuar as investigações sobre o envolvimento de políticos em atos ilícitos’’, assegurou. Ele acha que não basta ouvir um depoimento que já havia sido feito na Polícia Federal. ‘‘Onde a CPI vai chegar repetindo o depoimento?’’, questionou.
Posição parecida também foi manifestada pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) que afirmou estarem as CPIs perdendo pela banalização de seus objetivos. ‘‘A instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito deve ser algo que choque, que comova o País, que chame a atenção da população’’, afirmou. ‘‘Devemos definir que Legislativo queremos, como vamos adequar esse Legislativo ao momento do tempo real da população, porém nos faltam os instrumentos’’, disse Miro Teixeira.
Para o deputado, tanto a CPI do Narcotráfico como a dos Medicamentos estão se transformando num meio de aplicação penal. ‘‘Mas será que este é o Legislativo de que o Brasil precisa? Será que este é o Legislativo que deve ser projetado para os tempos futuros como um instrumento de proteção às tensões sociais’’? – questionou Teixeira.

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