Paulo San Martin
Especial para a Folha
De Campinas
Uma operação conjunta da Justiça Federal e da Polícia Federal tentou desmontar, há exatos dez anos, nas regiões da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, a mesma conexão do crime organizado que a CPI do Narcotráfico investiga hoje em pelo menos três estados – Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. A operação se desenrolou por mais de um ano e denunciou empresários, políticos, policiais civis e federais. No final de 91, auge do governo Fernando Collor de Mello, a operação foi desmanchada, os inquéritos não tiveram resultado e a estrutura escapou ilesa.
Investigações recentes realizadas pela CPI do Narcotráfico revelam que estrutura cresceu praticamente impune nos últimos dez anos, ramificou-se e deu origem a diversas quadrilhas que atuam hoje em várias regiões do País. ‘‘Há indicações claras de que o crime organizado na fronteira Brasil–Paraguai uniu-se mais tarde ao chamado esquema PC’’, garante o deputado Padre Roque Zimmermann (PT-PR), integrante da CPI.
A operação que tentou desmontar o crime organizado na fronteira foi comandada pelo juiz federal Edgard Lippmann Júnior e monitorada pela Procuradoria-Geral da República. Lippmann assumira a Vara Única da Justiça Federal de Foz do Iguaçu em 89 e surpreendeu-se com a impunidade. ‘‘O contrabando, o roubo de cargas e automóveis e a lavagem de dinheiro corriam soltas na fronteira. As ações policiais eram tímidas e havia claros indícios de acobertamento’’, conta Lippmann, hoje juiz federal em Curitiba.
Lippmann se lembra que, no final dos anos 80 e início dos 90, o Paraguai exportava grande quantidade de soja e café contrabandeada do Brasil para o Paraguai, onde os impostos eram mais baixos, e de lá exportados para o resto do mundo. O contrabando deu origem ao roubo de cargas. Carregamentos de soja e café eram roubados nas estradas do Paraná e Mato Grosso do Sul e levados para o Paraguai, onde cerealistas que faziam parte do esquema legalizavam com facilidade as cargas.
De acordo com Lippmann, o contrabando de grãos, o roubo de cargas e as quadrilhas de roubos de automóveis deram origem aos primeiros impérios do crime organizado na região. Mais tarde, estes grupos assumiriam o controle do narcotráfico e do tráfico de armas.
Lippmann começou as investigações cruzando nomes de pessoas envolvidas em processos de roubo de cargas e contrabando. Descobriu que muitos nomes se repetiam nos diferentes inquéritos. ‘‘A maior parte destas pessoas tinha ligação direta com homens como José Luiz Wanderleis, conhecido por Dezinho e chamado de Rei da Fronteira’’, afirma. Sobre Dezinho pesava a suspeita de comandar o crime organizado na região.
‘‘Começamos a cercar os pequenos ladrões e logo eles abriram o jogo’’, comenta o juiz. Em poucos meses, Dezinho já estava indiciado em dezenas de inquéritos e as suspeitas de envolvimento e acobertamento do crime organizado chegaram às polícias Federal, Civil, Militar e à Receita Federal.