Monte Dourado - Um bando de araras passa, estridente, lá no alto, alegrando a manhã. Cá embaixo, na mata úmida e quente, Reginaldo Pereira, o Régis, um moreno de poucas falas, abraça um pé de angelim. Fita métrica na mão, toma as medidas da árvore na altura de seu peito, observa o porte, o formato do tronco, ao mesmo tempo que vai cantando os números e as informações para o companheiro que segue atrás, anotando tudo em folhas quadriculadas.
Quando termina, Régis finca no tronco uma pequena placa metálica com um número, vira as costas e passa para outra árvore. Ele está inventariando a floresta. O número que deixa para trás é o novo RG do angelim. Ou quase isso.
O número será levado para o computador e permitirá acompanhar o desenvolvimento da árvore ao longo das próximas décadas. Por meio de GPS sigla inglesa para o Sistema de Posicionamento Global, baseado em satélites também será possível localizar a árvore a qualquer momento.
O inventário está sendo feito no meio da maior área de manejo sustentável de florestas nativas do mundo um território de 545 mil hectares, na região de Monte Dourado, distrito do município paraense de Almeirim, entre os rios Jari e Paru. Pertence à Orsa Florestal, empresa do Grupo Orsa, atual proprietária do Projeto Jari - o colosso de 1,7 milhão de hectares que já pertenceu ao americano Daniel Ludwig e ao Grupo Caemi.
Ainda funciona ali a fábrica de celulose e a termoelétrica que Ludwig trouxe do Japão após ter dragado o leito do Jari para a passagem de navios de grande calado. Cortada por 9 mil quilômetros de estradas, a área abriga ainda 400 mil hectares de eucaliptos; e uma criação de búfalos, com 11 mil cabeças.
Mas de tudo que existe naquela vastidão, o que mais entusiasma Sérgio Amoroso, o dono da empresa, é o manejo sustentável da floresta nativa. Trata-se de um processo complicado, que começa com o mapeamento e a divisão da floresta em lotes, o inventário e a localização exata de cada árvore. Mais tarde os resultados são apresentados ao Ibama, que, lote a lote, autoriza a retirada de parte da madeira apenas 25% das árvores adultas.
Depois de explorar um lote, a empresa passa para outro. Só poderá voltar ao lugar de onde já extraiu madeira após 30 anos tempo suficiente para o crescimento das árvores e a recuperação dos estragos. Apesar dos cuidados, que incluem até a direção em que a árvore cai, para minimizar o impacto sobre as suas vizinhas, a floresta sofre com a abertura de estradas e de pátios e o arraste das toras.
Segundo estudiosos, se a operação for correta, a floresta permanece em pé para sempre, mantendo o equilíbrio ecológico. (R.A./AE)

mockup