Invasões desestimulam a produção
A invasão da Fazenda Santo Antônio, em Mato Grosso do Sul, serviu para evidenciar os riscos econômicos e sociais de se permitir que a estratégia de ocupações do MST siga adiante, sem encontrar resistência policial, sendo muitas vezes recompensada pela desapropriação de terras para ceder aos invasores. Como mostrou a reportagem publicada no domingo por O Estado de S. Paulo, a fazenda é produtiva e pertence a um grupo empresarial ágil, gerador de empregos e riqueza - exatamente aquilo e que o capitalismo brasileiro necessita.
O Grupo Bertin é o maior processador de carne bovina congelada e industrializada do Brasil, com dois frigoríficos em São Paulo e um em Minas Gerais, nove cortumes, fábricas de calçados e equipamentos de segurança, de latas, de rações, de produtos de higiene e limpeza, e de seis fazendas, inclusive aquela invadida em Mato Grosso do Sul. O grupo que atua fortemente na exportação, industrializa mais de 600 mil bois por ano e produz 13% do couro nacional. Emprega 5,5 mil trabalhadores. Na fazenda invadida, moram 50 famílias, que dispõem de escola e assistência médico-odontológica.
Os irmãos Bertin, proprietários do grupo, nasceram num pequeno sítio do interior de São Paulo e prosperaram como empresários graças ao empenho, à ousadia e à visão que são as características do moderno empreendedor, gerador de riquezas - e de empregos - no mundo capitalista. Desde a Revolução Industrial, o capitalismo está pontuado de histórias de pessoas que tiveram um ponto de partida modesto, mas souberam assimilar os valores essenciais que levam ao sucesso neste mundo cada dia mais competitivo e complexo.
Quando a estratégia de invasões do MST atinge um grupo empresarial como esse, faz soar o alarme. A liderença do MST assumidamente escolheu a fazenda Santo Antônio por razões de ordem estratégica, por sua localização geográfica, na fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. A produtividade da fazenda não foi questionada. Com essa ação, o MST e os outros grupos que militam em favor das invasões expõem sua atitude de confronto com o sistema capitalista, um ideal de luta, aliás, insistentemente defendido por essas lideranças.
O país precisa refletir sobre se vale a pena permitir inciativas que tendem a desencorajar o investimento na produção em nome de uma reforma agrária que, se é justa do ponto de vista social, é inviável do ponto de vista econômico. Num momento em que os produtores rurais já estão atolados em problemas, devido, entre outras razões, aos juros altos e à falta de uma política agrícola, surge mais de um fator de risco para quem tenta oferecer produtos a preços competitivos no mercado globalizado. A insegurança gerada pela possibilidade concreta de ter a fazenda invadida, independentemente de ser produtiva ou não, uma vez que o MST lança mão de critérios próprios para escolher seus alvos, tende a crescer e a sobrecarregar ainda mais o custo, já sobrecarregado, na relação custo-benefício do empreendimento agropecuário. Para além de qualquer consideração política ou ideológica, é o aspecto econômico da geração de riqueza, e social, da geração de emprego, que precisa ser levado em conta, diante do fenômeno das invasões no campo. Até porque, numa avaliação política, o governo federal tem cumprido suas metas de assentamento e demonstrado inédita boa vontade para com o problema dos sem-terra, assim como sua liderança no Congresso, que no ano passado fez aprovar o rito sumário para a desapropriação e as mudanças no Imposto Territorial Rural, criando taxas proibitivas para o latinfúndio improdutivo.
A estratégia das invasões, ao se desenvolver, expõe sua natureza brutal e contraproducente, do ponto de vista social e econômico, uma vez que atinge empresários e produtores que geram receita para o Estado e empregos para a sociedade. Um país que queira desenvolver o seu capitalismo e se integrar ao mercado global e que compreende que a solução para a disparidade de renda deve ser compatível com a geração de riqueza não pode deixar que gente empreendedora seja punida por ter acreditado nele.
Transcrito de O Estado de S. Paulo, de 26 de março de 1997.





