Brasília - O quadro de alianças para as eleições municipais de outubro não está fechado, mas já é o retrato nítido da diluição das fronteiras partidárias e ideológicas, em nome de interesses locais. Prova disso, segundo um dirigente nacional do PT, é que o discurso ideológico inflamado contra o PSDB, que anos a fio marcou a campanha petista Brasil afora, foi descartado.
Seu uso está praticamente restrito a São Paulo e, nesse caso, a finalidade nada doutrinária é justificar uma ''parceria pragmática'', antes classificada de ''espúria'' pelos próprios petistas: a união da ministra do Turismo e pré-candidata do PT a prefeita da capital, Marta Suplicy, com o PMDB de Orestes Quércia.
Ao menos até agora, a única legenda que estabeleceu um parâmetro nacional, limitando as alianças, é o DEM. Assim mesmo, a restrição imposta pela Executiva Nacional passa longe da questão ideológica. ''No nosso caso vale tudo, menos parceria com o PT'', resume o vice-presidente do DEM, deputado Paulo Bornhausen (SC).
Ele está convencido de que as barreiras no campo ideológico, entre esquerda e direita, são coisas do passado, que não existem mais. ''Nossa incompatibilidade com o PT é de natureza ética. Não queremos nada com um partido cujos dirigentes, que deveriam dar bom exemplo, defendem mensaleiros e saqueiam cofres públicos.''
No geral, a regra que vale para todos os 27 partidos com registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é a falta de regras para as alianças na disputa municipal. ''Ninguém nos sugeriu nenhuma limitação e, na verdade, ninguém tem autoridade para excluir ninguém'', afirma o senador Cristovam Buarque (PDT), que, antes de disputar a Presidência da República pelo PDT, governou o Distrito Federal pelo PT. ''Em que o DEM é menos respeitável que os demais partidos?''
Ele defende a tese de que os candidatos ainda são diferentes, por razões éticas ou políticas, mas diz que as siglas ficaram todas iguais. Paulo Bornhausen concorda. ''Os interesses locais imperam porque todos os partidos viraram federações de lideranças regionais'', avalia.
Minas Gerais
A aliança eclética que mais chama a atenção e provoca protestos no cenário nacional é a que une o PSDB do governador de Minas, Aécio Neves, ao PT do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Por conta dela, o vice-presidente José Alencar (PRB) e o ministro das Comunicações, senador Hélio Costa (PMDB), ameaçam se juntar ao DEM no maior número possível dos 853 municípios mineiros.
Enquanto tucanos e petistas trocam farpas em São Paulo, em Minas só há troca de elogios. Fala-se apenas das semelhanças e convergências que sustentam a aliança em torno do PSB de Márcio Lacerda, candidato do governador Aécio e do prefeito Pimentel na disputa pela prefeitura da capital.
O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), diz que a orientação geral aos tucanos é para que dêem preferência ao DEM, que é o maior aliado dos tucanos no Congresso, e aos demais partidos de oposição ao Planalto. Não há uma proibição expressa a parcerias com o PT, mas qualquer iniciativa nesse sentido fica submetida ao aval da direção. ''Belo Horizonte não está em pauta porque lá a aliança é com o PSB'', desconversa.
No mesmo tom, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) diz que a recomendação geral da direção do PT é para que se construam parcerias dentro do arco de alianças que dá sustentação ao governo Lula. Pondera, no entanto, que há realidades locais específicas que precisam ser respeitadas.
''A eleição municipal tem muito a ver com tradições e relações pessoais'', atesta Mercadante, que inclui a Bahia na lista das ''relações específicas''. Lá PT e PSDB uniram-se nas últimas décadas contra o PFL do senador Antonio Carlos Magalhães - e continuam assim, embora o inimigo comum tenha morrido em julho de 2007.
O candidato do PSDB a prefeito de Salvador, Antonio Imbassahy, já avisou ao governador petista Jaques Wagner que não fará campanha contra o PT. Eles estarão juntos contra o DEM do deputado ACM Neto (BA).

mockup