Íntegra da declaração conjunta dos candidatos
Esta é a íntegra da declaração conjunta dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PPS):
1. Temos trajetórias diferentes e propostas distintas para o Brasil. Decidimos unirmo-nos nesta Declaração Conjunta, em um momento de perigo nacional, para alertar a cidadania sobre as ameaças que pesam sobre o País. Nossa decisão não altera nossas identidades políticas e programáticas. Não antecipa nem pré-determina a posição que adotaremos no segundo turno. Cada uma de nossas candidaturas tem compromisso com a independência do Brasil, com a justiça entre os brasileiros e com a democracia. Esses compromissos não se esgotam nas eleições.
2. O governo atual comprometeu nosso projeto de país soberano. Apenas manteve, em bases precárias e ruinosas, a estabilidade da moeda, valor que toda a sociedade defende. Sua política econômica desestruturou a produção nacional, provocou o maior desemprego de nossa história e agravou as condições de vida dos brasileiros. Fernando Henrique Cardoso preparou nos quatro anos de seu governo a situação em que nos encontramos hoje. Apostou cegamente o País no cassino financeiro global e perdeu a aposta. Arruinou nossas contas externas e internas e colocou o Brasil de joelhos diante dos especuladores internacionais. O País está quebrado e no mundo inteiro é apontado como a próxima vítima da crise financeira mundial.
3. Fernando Henrique Cardoso persiste em sua política e prepara em surdina um pacote com duras medidas pra o povo, que teme anunciar antes das eleições. Ao invés de construir as bases de um novo surto de desenvolvimento não dependente do capital externo, a política governamental enfraquece a Nação, debilita o Estado e exclui da produção, do consumo e da cidadania milhões de brasileiros.
4. Para impor esse modelo econômico perverso, o governo atual não hesitou em coagir o Poder Legislativo pressionando e cooptando parlamentares para votar um arremedo de reformas econômicas e políticas. O pacto federativo foi rompido. O Poder Judiciário sofreu pressões continuadas. A República ameaça transformar-se em uma fraude e, subvertendo a Constituição, busca-se impor um governo autoritário, que procura desqualificar opositores, insulta os cidadãos e estigmatiza a contestação política. Diante do desastre econômico e social que produziu, o atual presidente perverte o apelo ao pacto nacional como meio de arregimentar apoios para uma política malograda, não como base de uma mudança de rumo.
5. O atual governo inicialmente escondeu a crise, posteriormente minimizou sua gravidade e finalmente tentou fugir de suas responsabilidades. Não pode dizer que a culpa é da situação mundial, ocultando que foi ele que nos colocou na dependência do capital especulativo internacional. Agora quer ser a solução para a catástrofe que ele próprio criou.
6. Para manter a sociedade desinformada, Fernando Henrique Cardoso manipula grande parte dos meios de comunicação. Setores da mídia foram transformados em agências de propaganda do candidato-presidente. Não podendo mais acusar as oposições de não terem propostas, suprimiu-se o debate sobre os destinos do País, substituindo-o por um festival de trivialidade que inundou jornais, revistas, rádios e televisões.
7. O instituto da reeleição revelou todo seu potencial corruptor autoritário e intimidativo numa democracia ainda frágil como a nossa, onde a maioria do povo continua oprimida pela pobreza e pela desinformação. Para essa situação de desigualdade na competição eleitoral muito contribuiu a legislação sobre a propaganda na rádio e televisão que reduziu ao máximo a campanha além do uso constante da máquina governamental e do poder econômico em proveito do presidente-candidato.
8. Para salvar o País do perigo que o ameaça, temos de mobilizar os recursos nacionais. O Brasil precisa aprender a andar com as próprias pernas, sem se isolar. É necessário criar condições para poupar, produzir, exportar e investir nos brasileiros, sobretudo na sua educação e saúde. Para isso é preciso mudar as políticas que estão quebrando nossa economia. Precisamos de um governo social e politicamente forte, enriquecido e atuante, que disponha de recursos materiais e morais para ajudar os brasileiros a ficar de pé. Só alcançaremos esses objetivos livrando-nos de um presidente que deixou o País prostrado e indefeso diante da crise.
9. Ainda é tempo de reagir. A aceleração da crise e a gravidade das medidas preparadas pelo governo exigem que o País reaja. Coloca-se a necessidade de um debate mais amplo, frontal, transparente e igual sobre as alternativas para o Brasil. A realização do segundo turno permitirá esse debate. Chamamos o povo brasileiro a mobilizar-se para salvar a democracia no País. às ruas para ampliar o debate sobre a crise e sobre as alternativas das oposições. É dever de todos informar sobre o que está realmente em jogo, sobre as consequências futuras das decisões que o País venha a tomar. Cabe a todos os brasileiros conscientes romper com a conspiração do silêncio e o muro do conformismo que querem nos impor. Em todo o mundo, os governos que foram incapazes de defender suas economias e de proteger seus concidadãos acabaram varridos pelo voto popular. Chegou a hora do Brasil. A decisão está na mão dos brasileiros.
São Paulo, 28 de setembro de 1998
- Luiz Inácio Lula da Silva
- Ciro Gomes





