Instalação da CPI da JMK causa atritos na base de Ratinho Jr.
Escolha dos membros da comissão que investigará contrato de manutenção e gestão de frotas do governo recebeu críticas de deputados do PSL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de junho de 2019
Escolha dos membros da comissão que investigará contrato de manutenção e gestão de frotas do governo recebeu críticas de deputados do PSL
Mariana Franco Ramos - Grupo Folha 

Curitiba - Após um desentendimento inicial quanto à definição dos membros, a AL (Assembleia Legislativa) do Paraná instalou nessa terça-feira (4) a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da JMK, empresa responsável pela manutenção e gestão de frotas de veículos oficiais do Estado. Os deputados Soldado Fruet (PROS) e Delegado Jacovós (PR) foram eleitos, por unanimidade, presidente e relator do grupo de trabalho. A vice-presidência ficou com Tião Medeiros (PTB).
A escolha dos nomes, contudo, foi alvo de polêmica. Parlamentares do PSL, maior bloco da Casa, acusaram a base aliada ao governador Ratinho Junior (PSD) de tentar "melar" as investigações, concedendo a relatoria ao governista Michele Caputo (PSDB). O caso repercutiu durante a sessão plenária. "Existia resistência sim e existia alinhamento para que se tirasse a relatoria do PSL. O que eu bato na tecla é que os deputados novos têm de acordar. Ou nós acordamos, ou seremos engolidos pelo sistema. Deuses descem e invertem as coisas aqui embaixo. Depois a gente vê os sorrisos marotos", ironizou o deputado Do Carmo (PSL).
Por fim, houve consenso e Jacovós, também pertencente à chamada bancada da bala, acabou escolhido. O líder da situação, Hussein Bakri (PSD), rechaçou qualquer possibilidade de interferência do Executivo. "Qual a preocupação do governo? Zero. Por quê? O governo que pediu para investigar. O governo Ratinho está começando agora, tem base para fazer cinco, seis, sete CPIs (...) O Soldado Fruet, aliás, não faz parte da base, é dos mais ácidos críticos do governo. Ficou em boas mãos", afirmou.
O parlamentar garantiu que o grupo receberá todo o apoio e os instrumentos necessários por parte do governo. "Só não gostaria - não estou dizendo que vai acontecer - que perdêssemos a possibilidade imensa que tem a política de fazer essa investigação. Gostaria que isso não atrapalhasse o trabalho da polícia. Essa investigação está sob sigilo. Que a polícia faça seu trabalho, a CPI faça o seu e que possamos chegar a um denominador comum", prosseguiu o líder do governo. Ele também disse que não se pode "espetacularizar" a CPI, nem achar que é "palco para Facebook".
DOCUMENTOS
De acordo com Soldado Fruet, uma das primeiras providências será o pedido de documentos relativos à JMK. “Com base nisso vamos definir a convocação para os depoimentos. A CPI foi instalada para apurar irregularidades”, comentou. Jacovós disse que o delegado da Divisão de Combate à Corrupção da Polícia Civil, Alan Flore, responsável pela Operação Peça Chave, que apura irregularidades na JMK, será chamado. "Como a investigação está avançada, temos de chamar os investigadores que trabalham no caso. Queremos complementar o trabalho realizado pela polícia”, explicou. O deputado também contou que pretende sugerir a convocação de ex-secretários estaduais da Administração e Previdência.
A próxima reunião da Comissão está marcada para terça-feira (11), às 11 horas. A abertura da CPI foi proposta por Fruet. O prazo para a realização dos trabalhos é de 120 dias, prorrogáveis por mais 60. A Peça Chave investiga diversos crimes praticados por pessoas ligadas à JMK. O prejuízo aos cofres públicos é estimado em mais de R$ 125 milhões. Há suspeitas de que as atividades criminosas aconteciam desde o início da execução do contrato, em junho de 2015, na gestão do ex-governador Beto Richa (PSDB). Na semana passada, a Polícia Civil cumpriu 15 mandados de prisão temporária e 29 de busca e apreensão contra responsáveis pela manutenção da frota oficial.
Conforme as investigações, os responsáveis pela empresa teriam estabelecido uma sistemática que envolvia a falsificação e adulteração de orçamentos de oficinas mecânicas para elevar o valor do serviço prestado. Os superfaturamentos chegavam a 2.450%. A suspeita é de que eles usariam peças de qualidade e preço inferiores na manutenção de ambulâncias e viaturas policiais, cobrando do Estado como se fossem peças originais. Ainda segundo a polícia, os líderes do esquema teriam criado uma complexa estrutura que envolve “laranjas”, dezenas de familiares e empresas de fachada para ocultar e dissimular a origem criminosa do dinheiro.
QUESTIONAMENTOS
Para o líder da oposição, Tadeu Veneri (PT), que não faz parte da CPI, alguns questionamentos precisarão ser respondidos nos próximos meses. "Como anteriormente esse contrato era cobrado? Havia sobrepreço? Quem era cobrado? A CPI começa bastante animada. Mas a pergunta que deve ser feita é: nesses anos todos, por que esses contratos que foram feitos não foram submetidos ao Tribunal de Contas? Não foram auditados pela Fazenda? Ninguém viu? São seis ou sete anos e aí aparece? São coisas que ainda vamos ouvir na sequência".


