Inglaterra examina pedido contra Maluf
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segunda-feira, 15 de outubro de 2001
Fausto Macedo<br> Agência Estado<br> De São Paulo 
O Ministério das Relações Exteriores da Inglaterra comunicou ontem à Procuradoria da República em São Paulo que ''está encaminhando'' à Procuradoria-Geral das Ilhas Jersey a carta rogatória enviada pelo Itamaraty com pedido de quebra do sigilo e bloqueio de contas e aplicações das quais o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) e familiares seriam beneficiários.
O comunicado foi transmitido por e-mail de um escritório ligado ao ministério em Londres. A documentação enviada pelo governo brasileiro, com pedido de formal cooperação judicial, deverá chegar ao paraíso fiscal do Canal da Mancha entre hoje e amanhã. A rogatória era uma das condições impostas pelo procurador-geral da ilha, Willian James Bailhache, e pela Advocacia da Coroa Britânica para liberar eventuais dados referentes a Maluf.
Ontem, dois filhos do ex-prefeito - Otávio e Lina - e uma nora, Jacquelline, recusaram-se a depor à Promotoria de Justiça da Cidadania, onde está em curso inquérito civil que apura conexão entre desvio de verbas públicas que teriam ocorrido na gestão Maluf (1993-1996) e remessa de valores para o exterior. O promotor Silvio Antonio Marques, que conduz o inquérito, fez cerca de 25 perguntas, mas ouviu apenas uma resposta: ''Nada a declarar.''
Marques questionou os Maluf sobre o patrimônio de cada um, as profissões que exercem e se fazem declarações de bens à Receita em conjunto ou separadamente. O promotor perguntou a Otávio se ele sabia que Maluf ''teria contratado'' o escritório suíço Schellemberg Wittmer. Também quis saber sobre ''supostas contas'' no Citibank de Genebra e sobre o ''suposto trust em Jersey''. Ele fez indagações sobre o Escritório HBK, em Genebra, especializado em consultoria a grandes investidores.
O promotor perguntou sobre telefonemas dos Maluf. A quebra do sigilo do ex-prefeito permitiu identificar chamadas para a Suíça - de linhas em nome de Lígia, outra filha de Maluf, foram feitas 15 ligações para o Citibank de Genebra, entre 26 de abril de 1994 e 1º março de 1996. As ligações duraram, ao todo, 332 minutos. Na época, Maluf era prefeito de São Paulo.
A estratégia do silêncio - o artigo 5º da Constituição permite ao investigado permanecer calado - foi preparada pelo advogado Ricardo Tosto, renomado civilista que integra a equipe de defesa dos Maluf. ''A nossa linha é clara e tranquila, meus clientes têm o direito de saber se o Ministério Público possui provas sobre uma coisa que na verdade não existe'', anotou Tosto.
O promotor reconheceu que cabe ao Ministério Público ''procurar as provas''. Marques confirmou que ainda aguarda documentos de Jersey e da Suíça - onde Maluf teria mantido contas entre 1985 e 1997, antes de transferir os ativos para a ilha. ''Temos indícios muito fortes, mas faltam provas definitivas.''


