O voto eletrônico pode estar por trás de um dos principais fenômenos das eleições de 1998: o crescimento de 45% no número de votos válidos para a Câmara dos Deputados em relação a 1994, para uma expansão de apenas 11% do eleitorado. Cientistas políticos avaliam que a informatização facilitou para eleitores analfabetos, semi-alfabetizados ou com baixa escolaridade, maioria do eleitorado, o ato de votar, diminuindo a quantidade de votos brancos e nulos. Para Jairo Marconi Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, pelo menos 10 milhões de pessoas - que em urnas tradicionais teriam anulado os votos - foram integradas ao processo político.
‘‘É a grande notícia para o sistema representativo’’, diz Nicolau. Segundo ele, o fenômeno já ocorrera em 1996, quando houve queda de até 50% nos votos nulos e brancos nas seções utilizaram eletrônica.
Os números impressionam. Em 1994, dos 94.743.043 de eleitores, apenas 45.694.172 votaram em partidos ou candidatos à Câmara. Em 1998, para 106.101.067 de votantes inscritos na Justiça Eleitoral, foram 66.612.811 votos válidos. As diferenças são mais fortes onde a votação foi totalmente eletrônica. No Amapá, de 1994 para 1998 a proporção de votos brancos e nulos caiu de 30,5% para 15,3%; em Roraima, de 19,8% para 5,6%; em Alagoas, de 49,2% para 13,5%; no Distrito Federal, de 31,8% para 6,8%; no Rio, de 37,8% para 10,56%.
Nesses mesmos estados onde a votação foi totalmente informatizada, o crescimento na quantidade dos votos válidos variou entre 50% e quase 80%. No Amapá, nas eleições de 1994, 98.953 eleitores votaram em partidos ou candidatos à Câmara; em 1998, 177.402, numa elevação de 79,2% em apenas quatro anos. Em Roraima, a expansão foi de 68%: de 74.866 para 126.272. O aumento foi de 72,6% em Alagoas, onde passou de 497.183 para 858.595 votos. No DF, a expansão foi de 623.781 para 998.983 (60,1%), e no Rio, de 4.637.282 para 7.114.008 - mais 53%.
‘‘Não há nada que explique o que ocorreu, por exemplo, em Alagoas, que tem a maior taxa de analfabetismo e analfabetismo funcional, mas cujos índices de votos nulos e brancos ficaram abaixo do resto do Nordeste (onde houve urnas eletrônicas e convencionais)’’, afirma Jairo.
Mesmo em estados onde a votação foi só em parte eletrônica, as novas urnas podem ter ajudado a repetir o fenômeno. Em São Paulo, 42,1% dos votos para a Câmara em 1994 foram brancos ou nulos; em 1998, foram 19,82%. Na Bahia, essa proporção caiu de 43,6% para 23,17%; no Espírito Santo, de 41,7% para 19,21%; em Minas Gerais, de 45% para 23,82%; no Rio Grande do Sul, de 37,3% para 16,7%. Até no Amazonas houve queda, de 34,4% em 1994 para 11,7% em 1998.
‘‘Pensávamos que os votos nulos e brancos eram resultado de apatia e revolta’’, diz o cientista político Fabiano dos Santos, também do Iuperj. ‘‘Não era nada disso.’’ Segundo ele, há uma visão preconceituosa sobre o comportamento político dos brasileiros, atribuindo à falta de interesse ou até a protestos contra a obrigatoriedade do voto a grande quantidade de votação não válida verificada em pleitos anteriores, mas a verdade é outra. ‘‘A antiga forma de votar, em cédula, é muito difícil’’, disse. Segundo o cientista político, muitos eleitores anulavam o voto involuntariamente.
PresidenteO crescimento na participação do eleitorado nas eleições para a Câmara aparentemente contradiz outra tendência: a de diminuição relativa no número de votos válidos na eleição para presidente da República. O pleito que reelegeu o presidente FHC, por exemplo, teve quase o mesmo número de votos válidos que o primeiro turno da eleição de 1989 - a variação foi de apenas 0,16% em relação ao primeiro turno. Como o eleitorado aumentou 29% no período, em termos relativos menos eleitores votaram.
Em 1989, primeira eleição presidencial no Brasil desde 1960, eram 82.056.266 eleitores. No primeiro turno, votaram 67.613.337 pessoas (82,7%); no segundo, 66.156.191 9 (80,6%). Cinco anos depois, dos 94.743.043 eleitores, 63.310.993 votaram no único turno de votação, o que, proporcionalmente, foi bem menos: 66,8%. A tendência a diminuir continuou este ano, quando, dos 106.101.067 eleitores, 67.723.047 (63,8%) votaram em algum dos candidatos a presidente.Wilson Tosta
Arquivo FolhaVotação eletrônica: crescimento dos votos válidosAgência Estado

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