Informantes ficharam até Ernesto Che Guevara
Curitiba Em meados da década de 60, a revolução política fervilhava nos cantos mais recônditos do País, mas qualquer manifestação era reprimida com força, literalmente. O jornalista Luiz Geraldo Mazza não só acompanhou essa trasnformação, como fez parte dela. Por várias vezes, viveu situações insólitas, como ser retirado do cinema em pleno andamento do filme e ''convidado'' a depor na Dops.
Mazza conta que em um dos encontros informais com amigos estudantes e jornalistas, num restaurante da cidade, teve a sua conversa gravada sigilosamente. A surpresa veio com a manchete dos jornais no dia seguinte, anunciando a ''revolução'' por parte dos ''comunistas''. Essas e outras situações eram comuns na época e constam nas fichas da Dops, mas a também militante Teresa Urban lembra que outros casos também chocavam, e mais ainda intrigam até os dias atuais.
Até hoje, não se sabe, por exemplo, como informações tão detalhadas sobre os estudantes e militantes políticos iam parar na delegacia. ''Dentro da própria Universidade Federal do Paraná (UFPR) tinha um sistema de informação que nunca foi exposto'', revela Teresa. Professores, colegas, policiais disfarçados de militantes, todos podiam estar envolvidos em um sistema de infiltração que era tão complexo que tudo e todos era motivos de desconfiança. ''Quando éramos presos, os próprios informantes eram presos juntos para não despertar suspeitas'', conta a jornalista.
Uma das curiosidades das fichas da Dops que constam no Arquivo Público, por exemplo, é a ficha de Ernesto Che Guevara, com uma rara foto em que ele aparece sem barba e sem boina. A ficha tem dados biográficos e detalhes de sua conduta para ''ajudar nas investigações'', conforme diz o documento. A ficha revela que ele falava francês e russo com fluência, tinha 77 quilos e ''gostava de fumar cachimbos''.
Além da visita de Che Guevara ao Estado, a documentação da Dops reúne relatos da polícia política sobre as atividades de outras instituições, como o Centro Acadêmico Hugo Simas; do Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB); da Federação de Mulheres Paranaenses e da União Paranaense dos Estudantes (UPE). A documentação reúne também panfletos ''subversivos'' e inquéritos policiais. (K.M.P.)





