Apucarana - ''Boné na sua cabeça, pão na nossa mesa.'' A frase estampada em um cartaz empunhado pelo auxiliar de acabamento de uma indústria de bonés em Apucarana (cidade-pólo/Centro-Norte), Alexon Marcelino, 16 anos, expõe a preocupação de mais de 10 mil empregados do setor com os reflexos da lei 11.300/2006, que proíbe a distribuição de brindes nas campanhas eleitorais. Ontem, cerca de 2 mil pessoas participaram da manifestação organizada pelas indústrias de bonés no centro de Apucarana, na tentativa de sensibilizar o Supremo Tribunal Federal (STF), para que coloque na pauta de julgamentos de hoje duas ações diretas de inconstitucionalidade (Adin) que contestam a aplicação da lei (que foi aprovada em maio pelo Tribunal Superior Eleitoral- TSE) nas eleições de outubro.
A pressa no julgamento das ações ajuizadas pelo PDT e PTC é imposta pelo calendário eleitoral. ''Tem que entrar em pauta até amanhã (hoje) porque no dia 6, começa a período da propaganda. Não temos garantia (de que irá a julgamento hoje), por isso esse movimento, para sensibilizar'', justificou o advogado da Associação Nacional da Indústria de Bonés, Brindes e Similares (Anibb), Geison José Simões dos Santos. As ações argumentam que alterações nas eleições somente podem ser feitas até um ano do pleito. Seguindo este princípio, a lei 11.300 somente entraria em vigor em 2008.
Segundo empresários, se aplicada a lei, o faturamento previsto para a época cairá em torno de 40%, acarretando na demissão de até 2 mil empregados nas quase 600 indústrias e facções do setor. ''Como bons brasileiros acreditamos na reversão dessa sacanagem. Essa lei vai beneficiar os grandes políticos, que já são conhecidos, e prejudicar os novos'', avaliou o empresário Antonio Carlos Machado. ''Sem o boné, nós não sobrevivemos. Ficaria mais da metade da cidade desempregada'', afirmou Marcelino. ''Se isso acontecer teremos muito desemprego, tanto na indústria como no comércio'', complementou a auxiliar de acabamento Marli dos Santos.
A previsão do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Apucarana em relação às demissões como reflexo da lei é ainda mais pessimista. ''Acredito que se aprovada a lei, teremos mais 30% de demissões até o final do ano'', disse a presidente do sindicato, Maria Leonora Batista. De janeiro a julho, o setor demitiu cerca de 750 trabalhadores. ''Grande parte da renda do município vem da confecção de bonés e camisetas. Com a proibição, estaríamos passando por um caos.''
Os reflexos da lei para a economia da cidade também preocupam o prefeito Valter Pegorer (PMDB), que participou da manifestação. ''O poder público municipal apóia o manifesto porque não é o boné que provoca a corrupção na política. É a falta de ética, falta de compromisso. O boné é uma forma do candidato se apresentar. Não é o custo do boné que torna uma campanha milionária. Apucarana depende significativamente do boné. Tinham que levar em consideração a vida de uma cidade inteira'', argumentou.

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