Índios fazem Cardozo participar da dança do doente
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
Leonencio Nossa <br>Agência Estado 
Brasília - Em pé de guerra com os políticos, índios xavantes conseguiram que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, participasse da dança do doente. A performance de Cardozo, que fazia gestos com as mãos no estilo discoteca e sem acertar o passo, aconteceu no final da manhã de ontem, na cerimônia do Dia do Índio, no Ministério da Justiça. Durante a solenidade, ele arriscou ainda um outro movimento de vai e vem, ora com crítica à Proposta de Emenda Constitucional 215 defendida por ruralistas que passa para o Congresso a decisão de homologar reservas indígenas, ora na defesa de mudanças para diluir dentro do governo o poder da Fundação Nacional do Índio (Funai).
Assessores do governo divulgaram que o ritual indígena era a ''dança dos guerreiros''. O líder Arimatéia Xavante deu uma versão diferente: ''Essa é a dança da cura. Quando tem uma pessoa doente na aldeia, a gente bota ela pra dançar. É a dança do doente mesmo''. Em entrevista, o ministro foi questionado se passava por algum problema de saúde ou se o governo estava doente. Cardozo respondeu que tinha recebido a informação que o sentido da dança era outro. ''Estamos tratando de todos os males que afligem os povos indígenas. Pelo menos foi esse o sentido da dança que os índios disseram para mim'', afirmou.
As ministras Izabella Teixeira (Meio Ambiente) e Maria do Rosário (Direitos Humanos) evitaram passar pela ''dancinha''. Antes, porém, elas não escaparam de ouvir uma série de críticas e cobranças. O cacique Raoni Metuktire, liderança dos txucarramães, reclamou da Polícia Federal e da Força Nacional. ''Ministro (Cardozo), tem que falar com a Polícia Federal e com a Força Nacional para não matarem meu pessoal. Isso eu não gosto'', disse Raoni. ''Vocês têm que falar para respeitarem nossos parentes.''
Raoni referia-se ao assassinato do índio Adenilson Kirixi Munduruku durante a Operação Eldorado, da Polícia Federal, na aldeia Teles Pires, na divisa do Estados do Pará e de Mato Grosso. A operação foi deflagrada para combater um garimpo ilegal. Os ministros Maria do Rosário e José Eduardo Cardozo responderam que não compactuam com ações de violência contra aldeias. O ministro da Justiça afirmou, sem uma referência direta ao caso de Adenilson, que índios estão sendo usados por organizações criminosas que agem na área da mineração.
Mudanças
Para incômodo dos índios, o ministro avisou após a dança que o governo prepara mudanças na área, em especial nas regras de demarcação de reservas, com redução de influência da Funai. ''Estamos buscando aperfeiçoar esse entendimento com uma nova política orgânica que dê mais transparência e mais segurança jurídica nesses processos de demarcação'', afirmou.
A princípio, Cardozo disse, na solenidade, que o governo não acabará com a Funai e se posicionará contra a PEC 215 que muda o sistema de demarcação de terras indígenas. Em entrevista, ele admitiu, porém, que o governo estuda ''mudanças estruturais'' na área. Lideranças indígenas avaliam que essas mudanças reduzem ainda mais o poder da Funai nas discussões sobre projetos de infraestrutura na Amazônia. ''Buscamos aperfeiçoar essa política, dar transparência e segurança jurídica nas demarcações'', afirmou Cardozo.
O ministro disse que não aceitava a ''opinião'' de alguns de que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff nunca tiveram compromisso com a causa indígena. Foi uma resposta ao cacique Damião Paridzané, da etnia xavante, que, na solenidade, pediu a manutenção da Funai e uma ''postura'' do governo contra a bancada ruralista no Congresso. ''Eu respeito a presidente Dilma, mas ela tem que ter postura contra os ruralistas. Eu não aceito que os ruralistas aprovem o projeto que passa para o Congresso a decisão de demarcar terras indígenas'', afirmou o cacique. ''Eu não confio no Congresso, pois os deputados não vão na aldeia saber o que está acontecendo.''


