O procurador jurídico da Câmara Municipal de Londrina, Airvaldo Natal Stella Alves, disse que considera legítima a indignação popular contra os fatos que deflagaram as investigações de corrupção no legislativo londrinense. De acordo com ele, os ilícitos já descobertos configuram uma página negra na história da Câmara. O procurador assumiu o cargo no início do ano, quando surgiram as primeiras denúncias, e já contrariou posições da própria presidência ao longo deste tempo. Stella Alves é desembargador aposentado pelo Tribunal de Justiça (TJ) e foi juiz durante 15 anos no Fórum de Londrina. Suas declarações sobre o escândalo destoam, pela clareza e contundência, das emitidas pelos próprios vereadores londrinenses - inclusive os não citados nas irregularidades.
''Eu acho que a indignação popular tem seus motivos, tem razão, ocorreram coisas incofessáveis. (...) Infelizmente, apesar de ser um episódio negro na Câmara, é uma questão que ocorre não só aqui, mas em outros lugares'', disse. ''É bom que os vereadores tomem conhecimento de que a população está atenta, de que existem órgãos atentos, como é o caso do Ministério Público, e acho importante que seja feita uma investigação total.''
O procurador acrescentou que sua exigência para assumir o cargo foi a independência para agir com respeito estrito à lei. ''Foi isso que eu disse, que se for para investigar, demonstrar transparência e fazer com que as coisas caminhem de conformidade com a lei e a ética, estou aqui. Caso contrário não, porque rigorosamente não é a questão financeira que me colocou na Câmara Municipal.'' Stella Alves disse ainda que ''muitos vereadores querem dar transparência e um encaminhamento jurídico a todas as questões'' em andamento.
Um assunto em que ''bateu'' de frente com a direção da Câmara foi a convocação dos suplentes. Ao contrário do presidente Sidney de Souza (PTB), que resistia à convocação, Stella Alves defendeu que o Legislativo não podia funcionar ''desfalcado''.''Essa foi, de imediato, minha opinião. Existem discussões importantes em que é necessário quórum maior e se fosse funcionar com 14 vereadores poderia até atravancar a tramitação de vários procedimentos administrativos.'' O posicionamento do procurador, que contou com apoio de vários vereadores, acabou prevalescendo e a Câmara fez uma alteração no Regimento Interno para legalizar a convocação dos suplentes - que tomaram posse nesta quinta-feira.
O procurador não descartou a abertura de novos processos administrativos na Câmara decorrentes da investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sobre a doação de um terreno de 3.200 m2, no Lago Igapó I, ao empresário Marcelo Caldarelli. A promotoria apura denúncia apresentada pelo próprio empresário de que o projeto foi aprovado mediante pagamento de propina. Ele entregou ao MP cópia de uma lista com os nomes de nove vereadores que estariam envolvidos na operação. Fontes da FOLHA indicam que pelo menos três parlamentares já estariam bastante incriminados no caso.
''Isso está sendo investigado pelo MP e estamos aguardando que (os promotores) nos comuniquem os dados que têm para que a gente saiba o caminho que se deve adotar. Se houver algum que esteja na denúncia do MP, imediatamente a Comissão de Ética vai tomar as providências necessárias para abrir o processo administrativo disciplinar'', afirmou. A rapidez que o procurador pretende imprimir ao caso contrasta com a lentidão na abertura de processo contra os vereadores envolvidos na primeira denúncia de corrupção - deflagrada com a prisão do ex-vereador Henrique Barros. Na ocasião, a posição da Câmara Municipal era de que, sem uma representação apresentada por partido político ou um munícipe, o Legislativo londrinense nada podia fazer.

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