Curitiba - A Assembléia Legislativa irá encaminhar nesta semana todos os depoimentos e materiais coletados durante as investigações da CPI do Banestado para o Ministério Público (MP) estadual e federal, que têm a competência para propor denúncias contra os envolvidos nos crimes contra o banco. Além das 1,2 mil páginas que compõem o relatório final da CPI, outras 70 mil páginas contêm informações relativas às atividades do banco. De acordo com o relator da CPI Mário Sérgio Bradock (PMDB), 49 mil operações foram investigadas, sendo que 80% apresentavam algum indício de irregularidade.
Dentre todos os nomes que foram citados no relatório da CPI, o do ex-governador Jaime Lerner (PSB) foi o que mais causou polêmica na sessão de ontem. Bradock e o presidente da CPI, Neivo Beraldin (PDT), discordam quanto à posição que o MP deve adotar em relação ao governador. Enquanto Bradock substituiu o nome de Lerner no relatório pela expressão ''governo anterior'', evitando assim uma responsabilização direta do ex-governador, Beraldin acredita que o MP deve oferecer denúncia criminal contra Lerner.
''Como governador, ele sabia de tudo o que estava acontecendo no banco. Em 1995 ele enviou uma correspondência ao Banco Central afirmando que as finanças do banco estavam em boas condições. Em um período de quatro anos, ele conseguiu transformar a situação a ponto do banco precisar ser saneado a custos altos para ser privatizado'', argumentou Beraldin.
O governador Roberto Requião (PMDB) também defendeu a responsabilização de Lerner pelo rombo no banco. ''Sou ex-militar. Acredito que quem deve responder pelos erros é o comandante da operação'', afirmou. O governador, que acompanhou a sessão, aproveitou para atacar Lerner no plenário. Requião disse que o ex-governador teria utilizado US$ 4,5 milhões em sua campanha à reeleição em 1998 que teriam sido obtidos através de empréstimos feitos por empresas laranjas em paraísos fiscais. Segundo o governador, a Jabur Pneus, a Tucumann Engenharia e Empreendimentos Ltda. e a Redran Construtora de Obras Ltda. teriam emprestado a razão social para o comitê de Lerner utilizar o dinheiro.
Em nota oficial divulgada ontem, Lerner rebateu as acusações de Beraldin. O ex-governador afirmou que ''a privatização do Banestado foi feita de forma transparente e de conformidade com a lei. É de total conhecimento público que a privatização foi necessária porque o banco estava quebrado devido a empréstimos sem garantia feitos antes de 1995. Ou seja, a responsabilidade pela quebra do Banestado é de governos anteriores.'' Lerner classificou as acusações de Requião de ''levianas e inverídicas'' e ressaltou que as contas da campanha de 1998 foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
O possível oferecimento de uma denúncia contra Lerner pelo MP será analisado nos próximos dias. A procuradora-geral de Justiça, Maria Tereza Uille Gomes, afirmou ontem que novas ações relativas ao Banestado só serão propostas após os procuradores e promotores realizarem uma análise do relatório da CPI. Uille Gomes destacou que o MP estadual já tem mais de 30 processos e 10 ações civis públicas em tramitação que têm ligações com o Banestado. ''O relatório irá fornecer subsídios para instruir os processos já em andamento e, se for o caso, possibilitar novas ações'', afirmou a procuradora-geral.

mockup