Indicado de Ratinho e Moro vão polarizar eleição de 2026
Governador vai apoiar candidato do PSD no próximo ano e já reduz espaço de apoiadores do senador na administração estadual
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Governador vai apoiar candidato do PSD no próximo ano e já reduz espaço de apoiadores do senador na administração estadual
José Marcos Lopes, especial para a Folha 

Curitiba - A um ano do fim do prazo para o registro dos que concorrerão nas eleições de 2026, em maio do próximo ano, o cenário da disputa começa a ser desenhado no Paraná. Os movimentos e as articulações indicam um embate entre o grupo liderado pelo governador Ratinho Junior (PSD), o grande vencedor das eleições municipais do ano passado, e o senador Sergio Moro (União Brasil), que aparece em primeiro nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora.
Sinalizações de que o embate será inevitável vêm sendo dadas por Ratinho Júnior em entrevistas e com mudanças no governo. Em março, o governador exonerou o secretário do Trabalho, Mauro Moraes, filiado ao União Brasil e ligado a Moro. Moraes voltou ao cargo de deputado estadual e quem assumiu em seu lugar foi outro filiado ao União, o também deputado Do Carmo – que discutiu publicamente com Moro em agosto do ano passado. Apoiadores do ex-juiz da Lava Jato também estão perdendo cargos em escalões inferiores do governo.
Na terça-feira (20), em entrevista à rádio Jovem Pan, o governador garantiu que seu candidato ao governo será do PSD, descartando apoio a outro partido na disputa pelo Palácio Iguaçu. “É o meu compromisso, é o que eu quero. Não é só ser do PSD, é continuar um método que deu certo.”
Cinco nomes disputam a bênção de Ratinho Junior: o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi; o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca, atualmente secretário do Desenvolvimento; o secretário das Cidades, Guto Silva; o secretário da Infraestrutura, Sandro Alex; e o vice-governador Darci Piana.

Para analistas ouvidos pela FOLHA, a força eleitoral de Sergio Moro dependerá do apoio integral da federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo PP e oficializada no início do mês. Moro precisaria vencer uma disputa interna no União, que no Paraná tem uma ala comandada pelo deputado federal Felipe Francischini, e atrair para a campanha o líder do PP no estado, o deputado federal Ricardo Barros – quem vem ensaiando a candidatura da ex-governadora Cida Borghetti.
“Sob a possível coordenação do Ricardo Barros, um dos políticos mais experientes em eleições e bastidores no Paraná, é uma chapa que tem boas chances de fazer frente ao grupo do governador”, diz o cientista político Gabriel Marcondes de Moura, especialista em Gestão Pública e Comunicação Eleitoral. Ele aposta que, caso haja segundo turno em 2026, será entre Sergio Moro e o escolhido por Ratinho Junior. “A oposição hoje é mais articulada pelas franjas do governo do que pela oposição propriamente declarada.”

Com a alta aprovação do governo e vitorioso nas eleições de 2024, Ratinho Junior não tem necessidade de acenar para possíveis oponentes do PSD, avalia o cientista político e professor universitário Doacir Quadros. “Estrategicamente, o Ratinho está demarcando o seu território para 2026, desarticulando a influência do Sergio Moro no governo, a partir dessa reforma nas secretarias. Essa ação vai ao encontro do resultado das eleições de 2024, em que o PSD elegeu 41% dos prefeitos no estado.”
Uma das vantagens de Moro é que ele tem mais quatro anos de mandato como senador, lembra o professor da PUC Londrina e cientista político Mário Sérgio Lepre. “Ele não tem nada a perder. Dizem que não tem base no interior, mas o União e o PP são fortes no Paraná. O Ricardo Barros trafega no interior de forma incrível. Moro é um franco-atirador. Mesmo perdendo, pode fazer uma boa campanha, construir uma estrutura no estado e voltar depois de quatro anos.”
Fator PL

Um dos principais partidos da direita no país, o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro poderá ser o fiel da balança na disputa pelo governo. Tudo dependerá do cenário nacional e da corrida pelas duas vagas no Senado. “O PL com certeza terá candidato à Presidência. Se o PSD também tiver, é provável que o PL opte por lançar nomes próprios ao governo e uma chapa com dois nomes ao Senado”, afirma Moura.
“Tem que ver como vai ser o apoio ao nome do Bolsonaro para o Senado”, diz Lepre. “Se houver um fechamento claro em torno do nome do Filipe Barros (apoiado pelo ex-presidente), eles se acertam bem com qualquer um dos nomes do Ratinho Junior, menos o Rafael Greca, mas principalmente o Alexandre Curi. Sem um nome que desponta naturalmente, é difícil para o governador abraçar alguém. Ele corre alguns riscos, porque também tem pretensões eleitorais.”
Esquerda
À esquerda, os nomes mais fortes para a disputa pelo governo são os de Ênio Verri (PT), presidente da Itaipu Binacional, e do deputado estadual Requião Filho, recentemente filiado ao PDT. “O PT terá candidato próprio, para fortalecer sua chapa de candidatos a deputados federais e estaduais”, comenta Moura. “Se o PDT bancar uma nova candidatura do Ciro Gomes à Presidência, é bem provável que o Requião Filho concorra ao governo. No Paraná, nunca se deve subestimar o sobrenome Requião, mas é muito improvável que PT e PDT consigam chegar ao segundo turno.”

A tendência é que haja uma polarização entre direita e direita – como ocorreu em Londrina e Curitiba nas eleições do ano passado. “A composição do Progressistas com o União Brasil, se conseguir apoios estratégicos, terá condição de fazer frente ao grupo do Ratinho Junior muito melhor que os partidos de esquerda, como PT, PSB e PDT. Após a ascensão da figura do Roberto Requião, nos anos 80 e 90, as forças de esquerda tiveram muita dificuldade de crescer no Paraná”, observa Moura.
Senado
Pela primeira vez, o Paraná tem dois senadores que poderão não tentar a reeleição. Até agora, Flávio Arns (PSB) e Oriovisto Guimarães (Podemos) não deram sinais de que se candidatarão novamente no próximo ano. Aparecem como favoritos Ratinho Junior (caso não dispute a Presidência), o ex-governador Roberto Requião (sem partido), o ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros, apoiado por Bolsonaro. Outro nome cotado é de Cristina Graeml, que chegou ao segundo turno da eleição municipal em Curitiba e se filiou ao Podemos neste ano.
As pesquisas mostram que o atual governador seria um dos eleitos. A questão, avalia Moura, é saber quantos nomes o bolsonarismo terá na disputa. “Filipe Barros e Cristina Graeml são nomes alinhados ao bolsonarismo. Se os dois vierem a disputar, há uma possibilidade de que os dois naufraguem. E o nome do Deltan Dallagnol corre por fora. O Partido Novo não é muito estruturado, mas não dá para subestimar o nome do Deltan. É um nome que pode surpreender para o Senado, sobretudo se o bolsonarismo lançar dois nomes.”
Para Lepre, a definição do cenário depende, em primeiro lugar, do caminho a ser tomado por Ratinho Junior. Em seguida, de uma articulação para que a direita não atrapalhe a si mesma. “Tem que ver se o Ratinho vai sair para senador, aí vai estar desenhado o jogo. Mesmo com essa situação, com Curi para o governo, Ratinho e Filipe Barros para o Senado, ainda existem nomes ligados à direita que podem atrapalhar esse caldo, como Deltan Dallagnol e Cristina Graeml. Se eles entrarem no jogo, fica complicado dizer que existe uma chapa imbatível.”


