Curitiba - O superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Celso Lisboa de Lacerda, admitiu ontem que mais de 35% dos sem-terra cadastrados no Paraná não têm perfil para reforma agrária e jamais receberão terras para plantar do governo federal. Em depoimento ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa que investiga os conflitos de terra no Paraná, Lacerda contou que apenas 8 mil dos 15,3 mil acampados já trabalharam na terra e poderiam ser encaixados no perfil exigido nos critérios de reforma agrária.
Atualmente o cadastramento é feito de forma superficial, sem levar em conta o perfil urbano ou rural do acampado. ''Não temos estrutura suficiente para fazer o cadastramento como deveríamos. Além disso, sofremos constante pressão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para cadastrar cada vez mais famílias'', salientou Lacerda. Vinte por cento dos acampados estariam ainda se infiltrando no movimento para especulação rural. ''Infelizmente constatamos uma série de irregularidades inclusive em assentamentos, onde lotes foram transformados em chácaras de lazer. É uma aberração e que precisa ser banida da reforma agrária do Paraná. Estamos cuidando para moralizar todo esse processo'', complementou.
O deputado estadual Marcos Isfer (PPS), integrante da CPI da Terra, pediu a realização de uma campanha nacional para esclarecer a população sobre os critérios para reforma agrária. ''Essas pessoas carentes e miseráveis não podem ser usadas como massa de manobra, porque a verdade que tem que ser dita é que elas nunca vão conseguir ser proprietárias de um módulo rural. Temos que despolitizar a discussão e levar a discussão para um plano mais humano'', salientou Isfer. Mesmo o assentamento das 8 mil famílias com o perfil agrário no Paraná não poderá ocorrer rapidamente. Os acampados permanecem nas áreas invadidas e recebem cestas básicas do Programa Fome Zero do governo federal.
De acordo com Lacerda, 187 áreas foram vistoriadas no ano passado no Paraná e apenas quatro foram consideradas improdutivas. Nas quatro, caso sejam desapropriadas, poderiam ser assentadas mil famílias. ''Pelos atuais critérios de produtividade, não existem terras improdutivas no Paraná. A gente tem que lançar mão da compra de áreas para assentamento, mas dependemos da vontade dos fazendeiros de venderem suas terras. Não se faz reforma agrária no curto prazo'', pontuou o superintendente do Incra. Ele alertou que as regras de produtividade são ultrapassadas. Ele citou como exemplo a produção pecuária, que precisaria de apenas uma cabeça de gado para cada hectare de terra (dez mil metros quadrados).

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