Brasília - O presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, associou ontem os assassinatos de trabalhadores rurais a representantes do setor de agronegócio. Em discurso para cerca de 9 mil pessoas na Conferência Nacional de Terra e Água, Hackbart conclamou os sem-terra a se organizarem cada vez mais em busca dos ''limitados recursos orçamentários'' para a reforma agrária com argumento de que é preciso fazer frente ao setor de agronegócios, que ''é muito organizado.'' ''Temos de saber em que ponto vamos nos unificar, porque o outro lado é muito organizado. Sob a etiqueta do chamado agribusiness está o Adriano Chafik (fazendeiro de Felisburgo - MG, suspeito de envolvimento no assassinato de cinco sem-terra). Sob essa etiqueta está o proprietário que baleou os acampados ontem (anteontem) à noite no Mato Grosso do Sul'', afirmou o presidente do Incra.
Hackbart também falou sobre as dificuldades do governo em fazer a reforma agrária, uma das principais plataformas do governo Lula. ''O Estado é ainda incompetente e insuficiente para fazer a reforma agrária no País'', admitiu.
Numa resposta aos que vêem no Incra um ''braço dos sem-terra'', o presidente do Incra também aproveitou para dar um recado aos críticos do governo: parte do Incra e do Ministério do Desenvolvimento Agrário não trabalham apenas pela reforma agrária, mas por um desenvolvimento econômico e social.
Hackbart falou ainda sobre a falta de capacidade operacional do Incra para atender a demanda dos trabalhadores sem-terra. Por isso, ele disse que o governo federal precisa se unir às prefeituras e aos governos estaduais para dar mais agilidade ao processo de reforma agrária no País. ''Ai daqueles prefeitos que não priorizarem a reforma agrária. Muitos já estão entendendo que os acampamentos, os assentamentos de pequenos produtores estão nos municípios e não nos gabinetes em Brasília'', disse ele, aplaudido.
Ele recomendou às organizações ligadas aos problemas fundiários que estabeleçam ''pautas comuns'' para ter mais força e, com isso, obter mais recursos orçamentários. ''O orçamento geral da União é limitado. Nós temos de trabalhar por recursos. Nós, como governo, temos as nossas responsabilidades. Não vamos confundir nossos papéis. Por isso, unifiquem-se'', afirmou o presidente do Incra.
Em entrevista, logo após o discurso, o presidente do Incra reconheceu que o governo não conseguirá atingir a meta dos 115 mil assentados para este ano. Segundo ele, devem ser 90 mil.
Hackbart afirmou que todos os recursos para a obtenção de terra foram executados, cerca de R$ 870 milhões, dos quais 92% foram via desapropriações e o restante via compra de terras.

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