Incêndio avança pelo sul de Roraima
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sexta-feira, 27 de março de 1998
Edson Luiz Agência Estado 
A fumaça que há dois dias cobre Boa Vista, a capital de Roraima impediu ontem pousos e decolagens, deixando a cidade isolada. A Varig, responsável pelo único vôo comercial entre o Estado e o resto do País, precisou contratar ônibus para transportar passageiros entre Manaus e Boa Vista. A Base Aérea local só autoriza casos de urgência. O incêndio, que até o início da semana se limitava à área central do Estado, se espalha pelo sul. Ontem a coordenação de combate do fogo identificou cinco grandes focos, que podem se espalhar rapidamente.
Pela manhã, os helicópteros do Exército e da Força Aérea Brasileira foram impedidos de voar por causa da fumaça. Nos hospitais, aumentaram os casos de internações de pessoas com problemas respiratórios. O vento não consegue dissipar a fumaça, que cobre quase todo o Estado, e tende a piorar nos próximos dias por causa das queimadas na Venezuela e Guiana.
O vento sopra de Noroeste para o Sul, juntando a fumaça vinda dos países vizinhos à provocada pelo fogo em Roraima. O problema se agrava por causa de uma inversão térmica, que mantém a fumaça sobre o Estado. Pelas estatísticas de técnicos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), há pelo menos 50 focos de fogo no Estado.
Militares suspeitam que fazendeiros e pequenos agricultores estejam fazendo novas queimadas para se beneficiar da promessa de anistia de dívidas bancárias, anunciado pelo governo. As suspeitas dos militares se baseiam em uma foto que o chefe da coordenação de combate ao fogo, general Luiz Edmundo Carvalho, teria recebido, mostrando uma pessoa pondo fogo em uma área próxima a região já queimada. Com base nessa suspeita, os militares e o Ibama intensificaram a fiscalização.
Ontem à tarde cerca de 70 homens da brigada de infantaria de selva e integrantes do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal começaram a combater o fogo na área ianomami. Por causa da floresta fechada, os militares tiveram de descer por cordas, dos helicópteros. Além de proteger os índios, o governo tenta preservar as roças que alimentam as tribos.
Segundo pilotos comerciais, a visibilidade permitida para pousos e decolagens em Boa Vista é de 3.200 metros, mas, na madrugada de ontem o teto estava mais baixo do que na quinta-feira, quando começou o acúmulo de fumaça.
A Fundação Nacional do Índio (Funai) também cancelou todos os vôos que faria para as áreas indígenas levando alimentos e medicamentos. Além disso, a Operação Ianomami, organizada para tirar garimpeiros de terras indígenas, está paralisada por causa da impossibilidade de vôos para identificação de pistas clandestinas.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) começou ontem, em todo o País, uma campanha para ajudar as 2,4 mil famílias desabrigadas pelo fogo em Roraima. A meta é arrecadar dinheiro suficiente para comprar 150 toneladas de alimentos. A Igreja pretende distribuir arroz, feijão, carne seca e farinha de mandioca para as famílias de pequenos agricultores e ianomamis. A Cáritas Brasileira será a encarregada de coordenar a campanha. Todas as paróquias entrarão na campanha pedindo pequenas contribuições em dinheiro à sua comunidade. Qualquer quantia pode ser depositada na conta número 222.000-8, agência 3475-4, do Banco do Brasil, com cheque nominal à Caritas Brasileira.


