São Paulo - Um eventual processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff seria um processo muito mais traumático para a democracia brasileira do que foi o impeachment de Fernando Collor na avaliação do cientista político Carlos Melo, professor do Insper. "A situação atual não tem nada a ver com a queda do Collor, o risco é muito maior, a sociedade, muito mais complexa. O caso do Collor foi uma brincadeira de criança perto do que pode ser o impeachment de Dilma", disse Melo.
Melo, que tratou do processo de impeachment de 1992 em sua tese de doutorado e em outras publicações, ressalta que Collor era de um partido pequeno - o PRN -, com pouco apoio de movimentos sociais. Ele destaca ainda que a sociedade brasileira era menos complexa e que o Brasil não era a sétima economia do mundo.
Enquanto o quadro em volta de Collor era de uma instabilidade política forte, mas pontual, hoje há uma crise muito mais imprevisível e disseminada, da Lava Jato, que não se sabe para onde vai nem quem mais pode atingir, à crise econômica, para a qual o governo ainda não conseguiu dar uma resposta clara, explica Melo. "O momento é de muita insegurança e imprevisibilidade, o que é péssimo em todas as frentes."
O cientista político não vê mérito na argumentação petista de que há um "golpismo" da oposição ou uma tentativa de terceiro turno. Para Melo, há uma espiral de fatos negativos para qual o governo não conseguiu ainda achar uma saída, já que em sua visão nem o ajuste fiscal conseguiu ser de fato executado nem a chamada agenda positiva - com anúncio do pacote de concessões, ida da presidente aos EUA, Plano Safra, etc. - conseguiu trazer o efeito político esperado.
Melo avalia que hoje o risco de um processo de afastamento de Dilma é bem mais real que há duas semanas, após efeitos da delação de Ricardo Pessoa, da UTC, e instabilidade com a pauta bomba do Congresso Nacional, minando as ações da Presidência para colocar a economia nos trilhos. Se não houver fato novo, "Dilma caminha para o afastamento", diz Melo, ressaltando, contudo que na política é praticamente impossível prever se novos fatores com capacidade de alterar a rota vão aparecer.

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