Os economistas estão divididos sobre a dimensão do impacto da elevação das taxas de juros sobre a economia. Para alguns, eles serão mais nocivos que aqueles que resultaram da alta de juros adotada em março de 1995 com um objetivo semelhante: conter a saída de dólares e proteger o Plano Real. Outros analistas discordam desta interpretação e avaliam que, se as taxas começarem a ceder em breve, o impacto negativo deixará menos sequelas. Na verdade, a grande dúvida dos economistas é o tempo pelo qual as taxas continuarão elevadas. Os efeitos negativos serão proporcionais ao juro alto: quanto mais juro, menos crescimento.
Em março de 1995 o governo elevou as taxas básicas da economia para um nível superior ao atual, passando-as de 3,25% para 4,25%. No dia 30 de outubro, a puxada foi muito maior: a Taxa Básica do Banco Central (TBC) passou de 1,58% para 3,05% ao mês. A economia funcionava a um ritmo muito diferente do atual, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo 10% ao ano, a balança comercial apresentando resultados negativos mensais surpreendentes (depois de encerrar 1994 com superávit de US$ 10,5 bilhões, o primeiro trimestre do ano apontava déficit de US$ 2,3 bilhões), e as reservas internacionais caindo por conta da desconfiança provocada pela crise mexicana no final de 1994. Entre setembro de 1994 e março de 1995, as reservas brasileiras cairam 20%, indicando a perda de cerca de US$ 9 bilhões em seis meses.
‘‘Em 1995, foram adotadas medidas mais amplas, para conter o crédito e proibir o parcelamento de compras com cartão’’, lembra Carlos Kawall, economista-chefe do Citibank. ‘‘No curto prazo, medidas de contenção de crédito tem mais efeito sobre o consumo que a elevação isolada dos juros’’, pondera. Na sua avaliação, os impactos da atual elevação de juros serão menores do que àqueles observados em 1995.
Carlos Guzzo, superintende do Departamento Econômico do Banco Pontual, preparou um detalhado levantamento com indicadores econômicos de 1995 e comparou-os com os valores atuais. ‘‘A dose do remédio foi mais amarga este ano e os efeitos devem ser mais dolorosos’’, avalia. Para ele, o PIB pode ter crescimento negativo no primeiro ou no segundo trimestre de 1998.
Em 1995, os efeitos positivos foram imediatos e os negativos ficaram claros em três meses. O objetivo do governo era conter a saída de recursos e melhorar o desempenho da balança comercial, reduzindo importações. Depois de cair até US$ 31,8 bilhões em abril, já no mês de maio o governo havia recuperado US$ 2 bilhões e em setembro do mesmo ano as reservas já estavam em US$ 46,6 bilhões. O saldo comercial - negativo em US$ 2,3 bilhões no acumualdo do primeiro trimestre - voltava a ser positivo em julho.
O governo fez um movimento muito lento de redução de juros neste período, pondera Odair Abate, chefe do Departamento Econômico do Lloyds Bank. Entre março e julho, a queda mensal média foi de 0,10 ponto percentual. O resultado foi uma abrupta queda no nível de atividade, aumento da inadimplência e crescimento do desemprego. O número de falências requeridas passou de 819 em março para 1.858 em setembro de 1995. No mesmo período, a taxa de desemprego medida pelo IBGE passou de 4,3% para 5,2% ao mês. O PIB, que encerrara o primeiro trimestre com crescimento de 10% sobre o mesmo período do ano anterior chegava ao final do terceiro trimestre com crescimento de 1,2%.
Mauro Schneider, do ING Barings, observa que a situação de 1995 é muito diferente da atual. Além do ritmo de crescimento ser muito menor (agora há setores que estavam desaquecidos, com vendas em queda), em 1995 o crescimento era impulsionado pelo consumo e o governo adotou um conjunto de medidas para enxugar a liquidez da economia. Em abril, por exemplo, o Banco Central aumentou o compulsório sobre a captação dos bancos e depois elevou o IOF sobre as operações de crédito, passando a alíquota de 6% para 18%. Antes, havia aumentado a alíquota de importação de veículo de 32% para 70%. ‘‘O crescimento, agora, é mais sustentado pelo investimento e por isso o baque deve ser menor’’, avalia Schneider.
Na sua avaliação, os efeitos negativos decorrentes da alta de juros em outubro vão ser mais inadimplência e desemprego e menos crescimento. Um número muito preliminar adotado por ele é crescimento do PIB entre 2% e 2,5%. Antes seu número era 3,5%.

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