O secretário municipal de Governo, Adalberto Pereira da Silva, tem dentre suas atribuições a articulação dos interesses do Executivo na Câmara Municipal. Figura presente - e quase onipotente - no Legislativo nos últimos anos, praticamente não foi mais visto do outro lado da praça dos Três Poderes desde que a Câmara mergulhou na pior crise de sua história, no início do ano. Nesta entrevista à FOLHA, o major Adalberto - como é mais conhecido -, defendeu a forma com que o Executivo mantém a governabilidade, apesar das denúncias de irregularidades na tramitação de projetos que versam sobre doação de terrenos públicos e mudanças na lei de zoneamento. A urgência com que algumas leis são aprovadas também foi abordada pelo secretário. Ao cabo de 100 dias de crise, Adalberto garante que a administração de Londrina não sofreu abalos - mas o mesmo não se pode dizer da projeção de nossa imagem em outros centros urbanos. A seguir, os principais trechos da entrevista:
FOLHA: Como o senhor analisa o escândalo na Câmara?
Adalberto: O trabalho que está sendo feito pela PIC é louvável e tem que ser feito. Chegaram lá denúncias, eles têm que elucidar isso. Eu, se tivesse sabido e não tomasse providência, estaria prevaricando. De forma alguma nós tínhamos conhecimento de fato desse tipo. Nos causou surpresa como a toda a cidade.
FOLHA: Alguns projetos do Executivo se transformaram em oportunidade para vereadores cobrarem propina de empresários. Com o conhecimento do que ocorreu, a Prefeitura mudaria alguma em seu relacionamento com a Câmara?
Não, porque todos os projetos, principalmente de doação de área, passam pelo setor competente da Prefeitura que é a Codel. Quando chega na secretaria de Governo é tão somente para a dar a roupagem legal e o encaminhamento. E aí, meu papel é acompanhar para que sejam aprovados num prazo relativamente curto, para que a gente disponibilize para as empresas que estão chegando. Nós temos cidades no entorno da nossa oferecendo terreno e correndo atrás de empresários e não podemos nos dar ao luxo de perder empregos por questão de ficar 60 dias discutindo isso.
FOLHA: Aprovar doação de terreno público com urgência não confere excessivo poder de pressão aos vereadores? No mais das vezes, a própria Comissão de Justiça da Câmara aponta irregularidades nos projetos, mas isso é ignorado no plenário...
Quando o projeto vem da Codel, ele já passou pelo conselho que tem membros da sociedade civil e da Câmara. Muitos projetos vão para a Codel, mas só vem para cá os que foram aprovados pelo conselho. Nós nunca encaminhamos nestes sete anos de governo um pedido de urgência, todos chegaram à Câmara para tramitação normal.
FOLHA: Mas lá no Legislativo o pedido de urgência parte do líder do Executivo...
Para apreciação de matérias. Algumas vezes, e foi bom você tocar no assunto, existe algumas questões orçamentárias que nós precisamos acelerar. Porque de repente nós conseguimos um recurso no governo federal que não está na lei orçamentária e temos que ter autorização legislativa para pegar o dinheiro.
FOLHA: Então, em sua visão, a sistemática de encaminhamento de questões relativas a doações de terreno e mudança na lei de zoneamento, está correta?
Teria que ser mudada a Lei Orgânica, mas enquanto não mudar, prevalece o que está escrito na lei.
FOLHA: O senhor é a favor de mudar?
Não cabe a mim apreciar esse tipo de matéria. Ela deve ser apreciada na própria Câmara. Acredito que isso será discutido quando o Plano Diretor chegar à Câmara.
FOLHA: Agora foi o senhor que tocou num bom assunto... O próprio Plano Diretor não está atrasado em demasia? O governo vai terminar e as regras ficarão apenas para as próximas gestões...
Nós estamos seguindo um Plano que não é deste governo. Temos que fazer a política para o município, não para o governo. Existem técnicos trabalhando em cima disso e são eles que poderiam dizer se está demorando ou não. Eu não tenho, em sã consciência, condições de dizer se tem que ser feito em um mês, em um ano, ou em mais tempo.
FOLHA: Por que o secretário de Governo praticamente sumiu da Câmara nos últimos meses? No ano passado, era muito mais comum vê-lo por lá...Eu tenho ido bastante.
FOLHA: Um pouco menos...
Não, é que normalmente nos dias de sessões em que existiam projetos de governo sendo discutidos, eu estava lá. Como a pauta neste período tem menos projetos do Executivo, eu tenho ido menos - isso nos dias em que tem sessão. Mas, comumente, eu estou lá, e na secretaria de Governo.
FOLHA: Por que caiu o número de projetos do Executivo? A própria Prefeitura tem mandado menos?
Não, é que nós mandamos sempre que existe a necessidade. Normalmente, no começo do ano, o orçamento está adequado e não há tanta necessidade de fazer alterações. E como é ano eleitoral, não vamos mandar mais projetos de lei dando concessão de áreas para entidades, ONGs, porque é proibido por lei.
FOLHA: A crise do Legislativo tem prejudicado a cidade?
Na parte administrativa da Prefeitura não tem problema nenhum, estamos cumprindo o orçamento, as obras licitadas estão sendo tocadas, os projetos de lei do Executivo têm sido executados...
FOLHA: Atrapalhou de alguma outra forma?
Atrapalha na parte da visibilidade negativa que isso dá para a cidade. Mas, isso, não é só no Executivo, atrapalha toda a cidade. Quando se fala mal de algum lugar, todo mundo quer saber porque se fala mal, e a imagem de Londrina neste caso não é das melhores.
FOLHA: Secretário, um caso que está pendente de explicações se refere à aprovação de uma lei que autorizou a boate erótica Shirogohan a abrir um motel - com suspeita de pagamento de propina. O proprietário dos estabelecimentos, Claudemir Medeiros, disse que o projeto foi articulado pelo secretário de Governo e pelo presidente da Câmara, Sidney de Souza (PTB). O MP pode chamá-lo a dar explicações sobre. Por que o senhor se recusa a falar com a imprensa sobre a articulação do projeto?
A hora que me chamarem, eu vou esclarecer lá (MP). Agora, o prefeito já se pronunciou com todas as letras como esse fato se deu. Então, vou me silenciar até a hora em que for necessário falar sobre o caso.
FOLHA: E o caso da Acesf, como senhor vê?
É uma coisa grave que aconteceu e que eu não esperava. É até difícil avaliar neste momento. Agora, fico preocupado porque não tenho dúvida de que quando as pessoas estão fragilizadas e alguém faz uma insinuação, pode acontecer da forma que está sendo dito. O município já estava investigando e é bom que o MP também faça sua apuração para a gente saber de fato o que está ocorrendo.

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