O bispo d. Demétrio Valentini, da Pastoral Social da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos), disse ontem que se o presidente Fernando Henrique Cardoso não aceitar o convite para participar da 3º SSB (Semana Social Brasileira) amanhã, comprovará que não quer dialogar com a sociedade. FHC foi convidado para a apresentação da ‘‘Carta à Nação’’, documento que vai ser elaborado durante o encontro, que acontece até sábado no mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP).
O presidente enviou um fax ontem à CNBB informando que não vai poder comparecer ao evento por problemas de agenda. Todos os presidenciáveis cujos nomes figuram nas intenções de voto foram chamados. Deles, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), José Maria Almeida (PSTU), José Maria Eymael (PSDC), Ivan Frota (PMN), Sérgio Bueno (PSC) e Vasco de Azevedo Neto (PSN) já confirmaram presença.
Ciro Gomes (PPS) informou à organização do encontro que ainda tenta negociar um horário em sua agenda. Além de FHC, Enéas Carneiro (Prona) já confirmou que não vai à SSB. ‘‘Acho que é falta de responsabilidade com a cidadania, em debater as idéias’’, disse d. Demétrio. Segundo o bispo, que é coordenador-geral da SSB, pode haver preconceito por parte do presidente. ‘‘Acho que confirma que ele não quer muito dialogar com quem tenta pensar. Só ele quer pensar, será?’’
O bispo afirmou que a Igreja não tem posição nas eleições de outubro. ‘‘A maior contribuição nossa diante do governo é o posicionamento crítico. Não queremos fechar o diálogo’’, disse. Ele disse achar que FHC deveria participar do evento. ‘‘Eu lastimo. Acho que ele deveria vir. Não sei se ele tem outros planos.’’
Ontem, a SSB discutiu as chamadas ‘‘dívidas sociais’’ em vários grupos em Itaici. Segundo d. Demétrio, a principal dívida social é o fim da ética e da política. ‘‘Os partidos não estão fazendo política. Ninguém parou para pensar em um projeto para o Brasil’’, disse.
De acordo com ele, os partidos brasileiros se interessam atualmente somente em eleger seus candidatos e estar no poder. ‘‘Eu vejo no governo Fernando Henrique uma desistência de projeto nacional e uma submissão ao capital estrangeiro’’, afirmou.
Segundo ele, o maior defeito do atual governo é prescindir da cidadania. ‘‘Seria ótimo se o governo sentisse de perto a sociedade. Nós, da Igreja, queremos oferecer um respaldo crítico a eles (governantes)’’, disse. O bispo afirmou que a Igreja não deve se posicionar oficialmente sobre candidaturas. Segundo ele, no entanto, com a realização do Conselho Permanente da CNBB entre 24 e 28 de agosto, pode ser que surjam novas orientações. ‘‘Pode ser que a Igreja decida se pronunciar para os fiéis’’, disse.
O professor Milton Santos, um dos palestrantes de ontem na SSB, disse que a oposição não tem programa de governo. ‘‘Ninguém tem programa’’, afirmou. Santos é do departamento e geografia da USP e foi convidado para falar a uma platéia de 400 pessoas sobre dívidas sociais.
‘‘A questão é conscientizar, não eleger. Ninguém apresentou um projeto coerente. Ninguém apresentou datas: quer acabar com a pobreza, quando, então? Eles podiam elaborar projetos mais coerentes’’, afirmou. Segundo ele, a campanha está muito eleitoreira, mas pouco política. Para o bispo d. Demétrio Valentini, a Igreja Católica não pretende formar blocos, como os evangélicos, no Congresso Nacional. Segundo o bispo, a intenção da Igreja na política é somente de orientar a população. ‘‘A Igreja não ganha e não perde eleição. Não queremos bloco parlamentar’’, disse.
Segundo ele, a prática de outras igrejas (ele não quis citar nomes) em formar os blocos religiosos em cargos eletivos pode ser enquadrado como corporativismo. ‘‘Usam o Congresso para beneficiar a igreja deles. Queremos só um bloco: o da situação, oposição, que faça algo’’, afirmou. Ele disse que a intenção da Igreja é acabar com a corrupção eleitoral. ‘‘Temos uma proposta para mudar um capítulo da lei eleitoral. Estamos arrecadando assinaturas para que o projeto de lei seja tido como de iniciativa popular’’, disse.

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