A direção do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, negou ontem qualquer irregularidade no tratamento dado ao deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), atendido no início da tarde de terça-feira após um enfarte e que veio a falecer às 20 horas. O chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Lúcia, Álvaro Achcar, lembrou ontem que às 8 horas da terça-feira, cerca de cinco horas antes de ter o enfarte, o ex-líder do governo na Câmara sentiu fortes dores no peito. Como o mal-estar passou, o deputado resolveu fazer a rotineira caminhada, que exigiu dele grande esforço físico e o deixou desidratado. Segundo Achcar, o esforço físico contribuiu para o enfarte.
O coração de Luís Eduardo, há muito tempo, passava por um processo de arterioesclerose (envelhecimento que provoca o entupimento das artérias). Esta é a dedução feita pelos médicos do Santa Lúcia por causa das lesões múltiplas. O enfarte ocorreu na artéria direita, mas o tronco da artéria esquerda tinha lesão, assim como as artérias descendente anterior e a circunflexa. O cardiologista Itacir Franceschinni, um dos três cirurgiões da equipe que operaria o deputado caso ele não tivesse tido a parada cardíaca às 18 horas, afirmou que a lesão no tronco esquerdo é uma das piores que existem porque paralisa todo o lado esquerdo do coração.
O chefe da UTI ficou irritado com a denúncia de demora no atendimento ao deputado, feita anteontem pelo cardiologista Mário Maranhão, presidente do 13º Congresso Internacional de Cardiologia, que começa domingo no Rio de Janeiro. ‘‘Ele estava aqui?’, questionou Achcar, afirmando não ser de responsabilidade do Santa Lúcia o que aconteceu com o deputado do momento do enfarte até sua chegada ao hospital. ‘‘Esse médico é totalmente inconsequente’’, acusou Achcar, que tentou reanimar Luís Eduardo, por duas horas, com outros cinco médicos, depois da parada cardíaca, com massagem no coração, quatro choques elétricos e colocação de tubo na traquéia para aumentar a oxigenação.
Até a parada cardíaca, o deputado esteve consciente. ‘‘Não demonstrou medo em nenhum momento’’, contou Achcar, dizendo que as últimas palavras de Luís Eduardo foram para concordar com a realização do cateterismo. O pai do deputado e presidente do Congresso, Antônio Carlos Magalhães, também é médico mas, segundo Achcar, não interferiu no tratamento. ‘‘Foi falado para o deputado e para o pai da gravidade do infarte’’, revelou.
Segundo o chefe da UTI, foram tomados todos os procedimentos considerados ‘‘padrão’’ no mundo inteiro. ‘‘Ele (o deputado) não deu chance para a gente’’, lamentou. O serviço médico da Câmara fez o diagnóstico de enfarte agudo do miocárdio às 14h30 e, antes de ser transferido para o Santa Lucia, o deputado foi medicado com vasodilatadores e morfina.
Às 15 horas, Luís Eduardo chegou de ambulância ao hospital. Os exames de sangue e o eletrocardiograma foram repetidos e o diagnóstico confirmado. Imediatamente, o deputado recebeu via soro o fibrinolítico ‘‘Actylise’’. Gastou-se uma hora para introduzir o medicamento. Normalmente espera-se duas horas para verificar se o remédio fez efeito. Mas antes de completar o prazo, um eletrocardiograma - exame que era feito a cada meia hora - mostrou que o deputado piorava.
Por volta das 16h30 decidiu-se fazer o cateterismo para definir o tipo e extensão da lesão e decidir pela cirurgia ou pela angioplastia. O médico da família Benardino Tranchesi chegou às 17 horas. O caso era de cirurgia para a colocação de pelo menos quatro pontes de safena, informou ontem Achcar. ‘‘A angioplastia era contra-indicada porque a lesão era extensa’’, explicou. Mas o coração parou. Dois a três minutos antes da parada, o deputado recebeu dois marcapassos por via venosa para regularizar os batimentos. Os órgãos do deputado não foram retirados para doação. ‘‘Nem se pensou nisso’’, lembra Achcar. Ademais, doação só ocorre em casos de morte cerebral. (AE)

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