Sai o discurso ideológico antiditadura e pró-democracia, entram os recursos tecnológicos, as pesquisas de uso interno e a consequente repaginada no visual dos candidatos. Em 15 anos do atual formato do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, foram muitas as mudanças estéticas adotadas nos programas e algumas poucas mas significativas alterações de conteúdo. Isso não impediu, contudo, que velhas fórmulas utilizadas desde a campanha à presidência da República, em 1989, tenham resistido ao tempo e desafiado o senso crítico do eleitor, único alvo nessa briga entre os partidos.
A avaliação foi feita pelo doutor em sociologia e professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ronaldo Baltar. Há anos estudioso do assunto (com ênfase nas pesquisas de intenção do voto), Baltar acredita que a modernização no material veiculado quatro vezes ao dia, nas duas mídias, não impediu um retrocesso na apresentação de propostas. ''Antes era tudo muito mais amador, mas tendia-se bem mais ao debate de princípios ideológicos'', destacou, lembrando que o clima recém-saído do golpe militar (1964/1984) foi propício a isso.
Para o professor, a profissionalização na confecção dos programas acabou deixando de lado o teor do que é apresentado, com a insistência na defesa da tríade saúde-segurança-educação. ''As pesquisas de opinião de uso interno dos partidos melhoraram muito a apresentação dos políticos, agora com uma comunicação mais fluida. Em compensação, é difícil hoje distinguir pela TV quem é de esquerda e quem é de direita, tamanha a homogeneidade'', apontou.
De acordo com Baltar, velhas táticas de se associar a imagem do candidato a crianças ou idosos não só foram mantidas, como complementadas de outras que, da mesma forma, pouco ou nada acrescentam à discussão de propostas. ''Antes as imagens eram mais fortes; agora, tudo é suavizado com sorrisos, jingles e clipes'', disse, avaliando que, apesar de não agregar votos, os pequenos associam o político à imagem de respeito, de família de Messias. ''É como se dissessem: ''Vinde a mim as criancinhas'' (segundo a Bíblia, citação de Jesus Cristo). E para os pais isso vale muito, pois é alguém defendendo o futuro de seus filhos'', observou.
Novidade nas campanhas mais recentes, continua Baltar, o atrelamento do candidato à religião e às imagens de mulheres negras agiriam como fortalecedores da imagem politicamente correta supostamente pretendida. ''No caso das negras, para mostrar que não terão políticas excludentes. Já a ligação com a religião tem sido muito mais intensa agora, mesmo os que nem são muito devotos'', comentou, lembrando da ligação entre o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho (PSB), com a comunidade evangélica que o ajudou a se eleger governador do Estado.
''Como viram que com o Garotinho deu certo, outros também passaram a explorar o filão. Aí acrescentaram ao discurso do 'vamos fazer juntos' o 'vamos fazer juntos com Deus'', exemplificou. Alternadas às pequenas mudanças, voltam as antigas, acrescenta o professor: ''Todos eles se preocuparam em mostrar que são novidade para os problemas. Assim, todos são 'inovadores', mas muitas vezes só adotam nomes diferentes para programas que já existem''.
Enfaticamente contrário ao uso de crianças no horário eleitoral ''na minha opinião, é exploração, é um uso abusivo'' , Baltar defende que o espaço deveria destinar ao menos parte do tempo para o debate de idéias entre os adversários. Seria a chance, justificou, de se explorarem mais fielmente as virtudes e fraquezas de cada um, de forma que a escolha se fizesse mais clara na cabeça do telespectador/ouvinte/eleitor. ''É a forma mais rica de discussão, ainda mais se tem gente da imprensa e da sociedade civil participando'', aconselhou ele, que vê na proliferação dos debates fora do horário político uma das poucas evoluções positivas surgidas nos últimos anos. ''A imprensa tem se qualificado muito nesse sentido; bom seria se os próprios partidos pensassem assim.''

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