Em período eleitoral, não são poucas as pesquisas apontando que o eleitor ainda se baseia nos debates entre os candidatos ou nos programas do horário eleitoral gratuito para decidir o voto. Ao deficiente auditivo de Londrina, porém, as alternativas pouco ou quase nada têm adiantado: ou se é adepto da leitura labial, limitadora a uns poucos que têm prática, ou o jeito é recorrer a familiares e amigos para escolher o representante no poder público. Dos oito candidatos à Prefeitura, nenhum adotou o intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para apresentação de propostas na TV, diferente do que ocorre, por exemplo, nas propagandas da Justiça Eleitoral.
Pelos postulantes à Câmara de Vereadores de Londrina, apenas uma dos mais de 300 concorrentes lançou mão do recurso e, ainda assim, por poucos segundos.
''Creio que isso não é adotado pelos candidatos não por falta de conhecimento, mas por falta de atenção a uma minoria'', avaliou a diretora do Colégio Estadual Estadual do Instituto de Educação de Surdos (Iles), Marina de Fátima Benedito. Ela comentou já ter feito sugestões a partidos diferentes, na eleição passada, mas sem sucesso. ''Os surdos não entendem as propostas apresentadas só pelo aspecto visual. E como há lei dispondo sobre a difusão da Libras, achava que os candidatos respeitariam a limitação dos deficientes'', disse, referindo-se à lei federal 10.436, de abril de 2002, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Professora de Libras no Iles e também portadora de surdez, Cleusa Camargo de Oliveira, 37, contou que mesmo com a experiência de estudo na Língua ela encontra dificuldades para entender o horário eleitoral. O jeito, explicou, é buscar socorro na família para escolher em quem votar a prefeito ou a vereador quando este não é escolhido simplesmente por ser conhecido. ''Muitos alunos nossos que votam já reclamaram isso comigo, pois sabem que a tradução é direito deles'', comentou Cleusa. ''Em eleições passadas alguns vereadores fizeram pequenos comícios voltados à comunidade surda, mas até agora ninguém apresentou nada do tipo'', afirmou a professora, que é também membro da Associação de Surdos de Londrina. De acordo com ela, pelo menos metade dos cerca de 1.000 deficientes auditivos do município tem título de eleitor.
''A gente se sente meio frustrado, pois acha que o acesso à informação deveria ser igual para todos, e não é'', criticou a professora Cleusa.
Aluno do Iles entidade que mês passado completou 45 anos de atividade e eleitor pela primeira vez, Marcelo José da Silva, 17, admitiu que está desatualizado com as propostas dos atuais candidatos, mesmo com as sugestões dadas em família. ''Não dá para entender o que eles prometem para saber o que cobrar depois'', lamentou.
Já a intérprete Jane Bastos Alves, na profissão desde 1993, disse que preço e falta dessa mão-de-obra no mercado londrinense só o Iles tem uma lista com 15 nomes não são justificativas aceitáveis. ''Geralmente cobra-se o mesmo que cobra um tradutor de línguas; em média, R$ 20 por página de texto'', ilustrou. ''Além do Iles, geralmente o Fórum (para o caso de presos surdos) ou a organização de algum seminário nos contacta para o serviço. Político, mesmo, nunca'', garantiu a intérprete, para quem a Libras tem ''eficácia inquestionável'' na transmissão de qualquer tipo de mensagem.

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