Homem comum, nada mais
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de janeiro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Homem comum, nada mais
O que diferencia o presidente atual dos seus antecessores: a condição de homem comum, em que pese os mandatos parlamentares do baixo clero exercidos. Lembrar, no entanto, que do alto clero são Aécio Neves e José Serra, entre os que disputaram a presidência. Essa condição gerou mito diferenciado mais identificado com o povo no fundamentalismo de valores como a família, patriotismo formal, resistência à modernidade comportamental e nela à diversidade, difícil de assimilar, e o peso da religião a sobrepor-se sobre os demais.
Consequência imediata: o homem comum, o mais das vezes também um excluído, se viu, de repente, na presidência, depois de uma eleição que beirou o fanatismo. Claro que essa forma de identificação existiu anteriormente - e temos aí exemplos que vão de Vargas a Juscelino, de Collor a Jânio Quadros, de Lula a Tancredo -, mas nunca expressando uma incorporação tão absoluta no jeito até de pensar, quase sempre por impulso.
Para boa parte dessa massa, provavelmente a maioria, o presidente é cada um deles e sua inspiração de combate ao comunismo, como se o tempo nos tivesse devolvido às tramas maniqueístas da Guerra Fria, é exercido com o fervor militante da antiga TFP com os seus aparatos medievais. Nenhum dos outros foi tão comum.
O pensamento - se é que ainda temos um - é simplificado, linear, como esse do menino de azul e a menina de rosa e uma eventual ironia ou deboche soa herética e até pecaminosa. O homem comum chegou à presidência. E parece que o Lula disse de si mesmo de que era uma ideia ajusta-se àquele que opera como seu antípoda, um gerando o outro numa dialética espantosamente eficaz.
Coca comodity
Paranaguá é um dos portos que mais exportam cocaína, posto que obviamente de forma alternativa. Como não dá para contabilizar o que foge à fiscalização, feita pela Receita Federal naquele terminal, supõe-se que haja vazamentos. Se já foram flagrados em contêineres, como se deu na quinta-feira com um que teria o rumo da Bélgica, porto de Antuérpia com 760 quilos de cloridrato duto, várias toneladas, projeta-se aí a extrema audácia do contrabando. Paranaguá, com seu porto, pagou muitos pecados como o da mão de obra escrava que deu origem ao episódio quixotesco de a população da cidade, em defesa da soberania e do mar territorial, defender-se do Cormorant que invadiu a baía a pretexto de combater navios negreiros.
República avança
Nunca na história de paranaenses em ministérios nacionais tivemos tanta gente nossa a compor uma equipe como a montada por Sergio Moro na Justiça. Confiança e identificação nos feitos da Lava Jato e por consequência da República de Curitiba, como assoalhou Lula. O último integrante é Wagner Mesquita, delegado da Polícia Federal, especialista na área de serviços de inteligência e que foi secretário de Segurança de Beto Richa.
Nas redes sociais a ironia de que o PT imaginava Lula em Brasília e ele permanece na capital paranaense, enquanto Sergio Moro está dando as cartas na capital da República e levando para lá a força tarefa de Curitiba.
Ameaça
São Paulo reajustou tarifas de metrô e trens e ônibus municipais para R$ 4,30, o que dá a medida da alta havida em Londrina e, há mais tempo, em Curitiba. Agora o pessoal do Metrocard, o time (mais um) da passagem eletrônica, está advertindo na capital que se Ratinho Junior não mantiver o subsídio para o óleo diesel no ICMS vem aumento. E isso antes do contrato coletivo de trabalho de motoristas e cobradores em fevereiro. Orquestradinho como sempre e o povo, qual boi na hora do abate, caminha pro sacrifício.
Balneabilidade
O terceiro boletim de balneabilidade de praias e rios do Instituto Ambiental do Paraná não revela novidades: há 10 pontos interditados na orla litorânea (saídas de rios e galerias, inapropriados ao banho pela contaminação de colifecais), a Ponta da Pita de Antonina persiste interditada.
Massificação
Pelo movimento migratório nas praias que no réveillon chegou a 1 milhão e setecentas mil pessoas entre Guaratuba e Pontal do Paraná tem-se uma noção do esforço da operação praias em seus vários aspectos, como segurança, justiça, água, saneamento. Atribuições incomuns como as deferidas à Sanepar na coleta do lixo e sustentação dramática do suprimento de água potável surpreendem como a eficiência no campo judicial, com 441 audiências realizadas.
Sem chance
Na avaliação dos maiores partidos do Brasil o "plano B" de Paulo Guedes no bloqueio à reforma previdenciária - o da desvinculação dos gastos em saúde e educação - teria chance zero de aprovação em emenda constitucional. Tudo foi visto como uma ameaça didática à classe política e com efeito meramente moral.
Folclore
Ratinho Junior tem o seu programa de austeridade sob ameaça. Ele havia admitido que manteria o subsídio do transporte metropolitano, mas com menor custo. Agora veio a ameaça da bilhetagem eletrônica da Mastercard de que se o subsídio do ICMS do diesel não for mantido a tarifa sobe. Não vai ser fácil fazer mais com menos.


