Historiadores de Minas Gerais não estão vendo qualquer possibilidade de golpe em razão do confronto entre o governador mineiro Itamar Franco e o presidente Fernando Henrique Cardoso. O historiador Evaldo Cabral de Mello não acredita que exista uma crise institucional: ‘‘As instituições estão funcionando normalmente, não existe crise’’. Ele considera que a semelhança com os episódios de 1930 e 1964 é meramente formal: ‘‘As circunstâncias e as condições são completamente diferentes. Eu duvido que o governador de Minas conte com o apoio da população para um movimento dessa natureza’’.
Segundo Mello, não há um fundamento racional para a atitude de Itamar, uma vez ‘‘que o acordo de renegociação da dívida foi bastante favorável aos Estados’’, mas apenas uma questão pessoal de Itamar em relação a FHC. Mello avalia que Itamar pode estar fazendo um cálculo político visando a eleição presidencial de 2002, mas acha que essa manobra não tem grandes possibilidades de êxito: ‘‘Esses atos heróicos não pegam na população brasileira’’.
Laura de Mello e Souza, autora de ‘‘Os Desclassificados do Ouro’’, também avalia que há uma distância considerável entre o confronto atual e o Movimento de 1964: ‘‘A diferença é muito grande entre os dois momentos’’. Ela assinala que as ‘‘questões que se levantam agora entre os Estados e o governo são questões estruturais na história brasileira’’. Esses problemas, porém, são recorrentes e não acarretam necessariamente a eclosão de crises políticas.
Heloísa Starling, autora de ‘‘Os Senhores das Gerais’’, não acredita que Itamar tenha uma motivação golpista nem vê qualquer semelhança entre a crise atual e o Movimento de 1964: ‘‘Não tem nenhuma semelhança. Não acho que Itamar esteja colocando Minas em um estado de rebelião’’. Ela considera, porém, que a convocação do comando da PM mineira tem um significado político: ‘‘Itamar muito provavelmente só está fazendo uma bravata, mas com isso ele está canalizando uma certa insatisfação difusa’’.
Para Heloísa, a convocação da Polícia Militar por Itamar tem um sentido simbólico: ‘‘Itamar está passando um recado para dentro e para fora de Minas. Ele tenta se colocar como o oposto do governo anterior (Eduardo Azeredo, PSDB), acenando para os que acham que o Estado está sendo sufocado e menosprezado. Ao chamar a PM, está dando um recado de que ele é o comandante da PM. Do ponto de vista interno, isso aumenta o cacife de Itamar. Mas não tem intenção golpista nem tem apoio para isso.’’
O historiador Francisco Iglésias, autor de ‘‘Trajetória Política do Brasil’’, considera que‘‘qualquer fato dessa natureza pode trazer instabilidade’’, mas que a população encontra-se inteiramente alheia a essas articulações. ‘‘Tudo isso que está acontecendo, ninguém percebe nada. O povo não tomou conhecimento. É um conflito restrito à elite’’. Iglesias nota que as ações de Itamar, ‘‘até agora, não tiveram repercussão’’ na sociedade civil. Sobre o desdobramento da crise, prefere não fazer previsões: ‘‘É um enigma’’.

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