Patrícia Zanin
De Londrina
Personagens com origens, histórias e vidas diferentes se misturaram ontem à multidão que foi conferir, do lado de fora da Câmara, a sessão que votaria a abertura da Comissão Processante que pode culminar com a cassação do mandato do prefeito Antonio Belinati. O nome Belinati, há mais de trinta anos, três mandatos na prefeitura, suscita amor e ódio – numa medida em que não cabe meio termo entre o povo de Londrina.
Segundo a Polícia Militar, cerca de mil pessoas se concentraram em frente à Câmara no início da tarde. O número foi sendo reduzido ao longo da tarde porque, além da chuva, o cansaço impediu que as pessoas permanecessem de pé esperando a sessão, que terminou em pancadaria.
Muitos desses personagens foram à Câmara por motivos diferentes: o corretor Israel Klein fez questão de adiantar o serviço de manhã para se manifestar pela moralidade de Londrina. Já o casal Márcia Gonçalves da Silva e Nivaldo Onório de Souza, do Jardim João Turquino, levou os quatro filhos – o mais novo de apenas 3 meses – para apoiar o prefeito.
Argumentos diferentes uniram, no mesmo local, gente que nunca se viu. ‘‘É preciso acabar com os maus políticos. Enquanto o povo estiver votando por uma lata de óleo, uma cesta básica e uma mentira, não vamos mudar esse País’’. Ele disse que está na hora de a cidade ter um prefeito ‘‘à altura da cidade’’, defendeu Klein.
‘‘Tenho fé em Deus que ele não vai sair’’, disse a mãe de Márcia, a dona-de-casa Elza Maria da Silva. A família é grata ao prefeito por ele ter doado material de construção para erguer as casas no bairro. ‘‘Eu não tinha casa, ele foi pessoalmente numa reunião e disse que era um presente para gente’’, relata a dona-de-casa. Ela disse que moradores do João Turquino alertaram parentes de dona Elza que marcar presença em frente à Câmara era importante porque poderia ajudar a evitar a saída do prefeito.
A família não conseguiu entrar – não tinha senha. Esperou parte da sessão sob a coberta do Fórum e não teve fôlego para esperar. Por volta das 16 horas, Dona Elza, a filha, o genro e os quatro netos foram para o ônibus fretado que os levaria de volta para o bairro. ‘‘Meu neto tem medo de polícia, por isso viemos para o ônibus’’, justificou Dona Elza. O grupo comeu pão com presunto e queijo e achocolatado distribuído quando eles saíram do bairro, arrebanhados pela associação de moradores.
O agricultor José Luiz Porto, do distrito de Guaravera, usou circular para chegar até a Câmara. Acredita que, se o prefeito conseguir fugir ‘‘da integridade e moralidade que tentam implantar, vai renascer como o cara mais famoso do Brasil’’. ‘‘Será Ronald Biggs em primeiro e Belinati em segundo’’, disse, numa referência ao autor do assalto do trem pagador. ‘‘Se o Belinati renascer, vai entrar para a história e nossos filhos vão ter o desprazer de estudá-los’’. O agricultor, que conta ter votado três vezes no prefeito, disse que se sente traído e envergonhado. ‘‘Sem dúvida ele meteu a mão. Senão, não teria poder para manipular essa massa desnutrida e desprovida de cultura, educação e bom senso cristão’’, analisou.
Opinião diferente tem um grupo de donas-de-casa que agitava bandeiras com a inscrição ‘‘Belinati 2000 PFL’’. Elas moram no Jardim Paulista, zona norte, e apostam que o prefeito não desviou recursos do município. ‘‘Ele é muito bom para o povo, fez muito por Londrina. Mas se isso aconteceu, ele não foi o único’’, disse Sílvia Regina Aguiar.Para o nome Belinati não há meio termo, e mesmo sob a chuva, as pessoas foram se declarar a favor ou contra o prefeito de Londrina
Mario CésarEXPECTATIVAManifestantes na chuva, observados pela polícia, esperam pacientemente, em frente à Câmara, pelos debates

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