Curitiba - ''A pior herança da ditadura militar em termos políticos é a abominável distorção entre o tamanho da população e o tamanho da bancada que a representa no Congresso Nacional.'' A avaliação é do professor Dennison de Oliveira, coordenador do curso de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). São 513 deputados e 81 senadores, para uma população de 178,5 milhões de brasileiros, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ''O abominável 'pacote de abril' (1977) de Ernesto Geisel levou à superrepresentação dos estados do Norte e Nordeste do País e à correspondente sub-representação do Sul e Sudeste, levando a distorções que até hoje nosso sistema político é obrigado a carregar'', diz o professor.
Dennison de Oliveira aponta outro problema que se arrasta até hoje. ''De quebra, ao gerar dois tipos de políticos (o adesismo fisiológico que apóia o governo e o oposicionista alienado que não participa da gestão da coisa pública) distintos que se reproduzem até hoje, também a ditadura inflingiu terrível mal à nossa cultura política que permanece até hoje.''
''Na reforma política, a edição de decretos-leis, a imposição do bipartidarismo e da fidelidade partidária são vistos como simples instrumentos de imposição da ordem ditatorial sobre uma nação. Contudo, embora não se possa jamais desconsiderar essa ordem de motivações, tais medidas eram entendidas como formas de se superar aquilo que se entendia como a paralisia decisória do Congresso, a proliferação desmedida de partidos políticos e o descomprometimento dos eleitos com o programa dos partidos que os elegeram'', comenta o professor.
Em relação ao chamado ''milagre econômico'', que resultou no endividamento do Brasil, o professor lembra que ele trouxe inflação. ''Para os brasileiros que viveram duas décadas de estagnação econômica e agora ingressam numa terceira, o fato da economia brasileira ter sido capaz de sustentar taxas de crescimento anual da ordem de dois dígitos (1969-1974) é hoje algo que quase que escapa à nossa compreensão. Contudo, é importante lembrar que no período anterior ao 'milagre', nossa média de crescimento (1946-63) estava por volta de 7%.''
Mas, na opinião do professor, o ''milagre'' tinha os dias contados. ''Por depender intensivamente de importações, o 'milagre' teria acabado de qualquer forma em 1974, bem como gerou uma considerável inflação. Por carecerem totalmente de legitimidade política, os militares decidiram se legitimar com base na eficiência da gestão econômica, usando e abusando de formas disfuncionais de financiamento estatal, como o endividamento externo e interno que levaram a economia à beira do colapso em 1982. Mas numa perspectiva de mais longa duração, abarcando todo regime militar, seus êxitos econômicos são inegáveis'', analisa Oliveira. (M.D.)

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