Para o professor de Ética e Filosofia Política na UEL (Universidade Estadual de Londrina) Clodomiro Bannwart, as revelações de Sergio Moro apontam que a finalidade do presidente é o de instrumentalizar a Polícia Federal para transformá-la em polícia de governo. O que foi negado por Bolsonaro. "A PF é polícia de Estado e assim deve continuar sendo, tendo autonomia e independência para investigar, sob os lastros da lei, quem quer que seja, mesmo pessoas próximas ao presidente. Caso seja confirmada, a revelação é muito grave e revela um presidente que já não esconde mais sua vocação autoritária."

Bannwart afirma que Moro sai fortalecido, e Bolsonoro, enfraquecido do episódio. "Com sua saída do governo, Moro não retira apenas capa de moralidade com que cobriu Bolsonaro nesse período, mas levará consigo parte de seus apoiadores. Provavelmente haverá uma cisão entre bolsonaristas e lava-jatistas com a tendência de arrefecimento do apoio popular a Bolsonaro". O analista político também considera Moro o mais forte opositor do presidente na disputa de 2022.

Sobre o apelo pelo impeachment, o Bannwart diz que além de enquadrar Bolsonoro porcrime de responsabilidade nos parâmetros legais, será preciso o fator extra: a pressão popular. "A demissão desnecessária do ministro da Saúde em plena pandemia e que tinha importante índice de aprovação popular é um exemplo. A demissão do diretor da Polícia Federal, que, de tabela, expeliu Moro do governo, é outro exemplo de decisão política a minar sua base de apoio. E, por derradeiro, ao ressuscitar a velha guarda dos condenados no Mensalão e na Lava Jato, como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto".

O cientista político Rodrigo Prando avalia que o melhor caminho e menos desgastante seria a renúncia, mas considera as chances baixas pelo perfil de Bolsonaro. "As condições de crime de responsabilidade e falta de sustentação política já estão dadas. A grande pergunta é se os atores políticos vão segurar o presidente até lá na frente por caso da pandemia ou vão considerar que a presença dele só irá agravar o quadro", avalia o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Confira na íntegra a entrevista com o professor da UEL e analista político Clodomiro Bannwart Júnior:

Há crime de responsabilidade cometido pelo Presidente da República naquilo que Moro falou?

Há farto material que vem sendo colhido por meio das atitudes do Presidente e que o implicariam em crime de responsabilidade, segundo importantes juristas no País. O ato de Bolsonaro, por exemplo, no domingo passado, ao discursar para um grupo de manifestantes pedindo intervenção militar e o AI 5, depõe contra o Presidente, quem primeiro deveria defender a Constituição.

As revelações de Moro apontam que a finalidade do Presidente é o de instrumentalizar a Polícia Federal, transformando-na em polícia de governo. O que foi negado por Bolsonaro, em coletiva. A PF é polícia de Estado e assim deve continuar sendo, tendo autonomia e independência para investigar, sob os lastros da lei, quem quer que seja, mesmo pessoas próximas ao Presidente. A declaração de Moro, caso seja confirmada, é muito grave e revela, nesse sentido, um presidente que já não esconde mais sua vocação autoritária.

Quais os desdobramentos da demissão de Moro do Ministério da Justiça?

Moro sai com sua imagem política mais robusta do que quando entrou no governo. Naquele momento, ele era visto como credencial moral a aferir credibilidade institucional a um governo de extrema-direita, que o processo eleitoral de 2018 já havia enviado vários sinais do comportamento pouco republicano do então candidato Jair Bolsonaro. Moro era visto como alguém capaz de dar o tom de moderação a um Presidente sempre disposto ao atrito com seus opositores. Com sua saída do governo, Moro não retira apenas capa de moralidade com que cobriu Bolsonaro nesse período, mas levará consigo parte de seus apoiadores. Provavelmente haverá uma cisão entre bolsonaristas e lavajatisitas com a tendência de arrefecimento do apoio popular a Bolsonaro. Moro demarcou o terreno do combate à corrupção e poderá falar, a partir de agora, na mesma gramática dos políticos, como potencial candidato à Presidente em 2022.

Há possibilidade de impeachment?

Sim, é possível. Bolsonaro tem deixado um rastro de ações incompatíveis com as instituições democráticas do Estado de Direito. Porém, a realização de um impeachment necessita da confirmação de o presidente ter cometido crime de responsabilidade parâmetros legais e, sem dúvida, de apoio popular. E Bolsonaro tem contribuído para isso. A demissão desnecessária do Ministro da Saúde em plena pandemia e que tinha importante índice de aprovação popular, é um exemplo. A demissão do diretor da Polícia Federal que, de tabela, expeliu Sérgio Moro do governo, é outro exemplo de decisão política a minar sua base de apoio. E, por derradeiro, ao ressuscitar a velha guarda dos condenados no Mensalão e na Lava jato, como Roberto Jeferson e Valdemar Costa Neto, o presidente colide com muitos de seus apoiadores que enxergam Moro como símbolo de combate à corrupção, pauta cara para uma boa fatia do eleitorado.

A fala do presidente Bolsonaro na coletiva minimiza os efeitos da crise?

Bolsonaro mais de uma vez deixou manifesto, na coletiva concedida, “que não aceita sua autoridade ser confrontada por ministros” e “que não tem de pedir autorização a ninguém para mudar quem quer que seja”. São declarações que demonstram a postura de quem confunde autoridade com autoritarismo. Tangenciou o discurso tocando em casos de ordem privada, sem, no entanto, negar as acusações feitas por Moro. Fez do ex-ministro um inimigo a mais em sua coleção de desafetos, ou melhor, transformou-o num forte concorrente em 2022.

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