Hauly prega transparência e ataque ao déficit público
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sábado, 08 de julho de 2000
Pedro Livoratti De Londrina 
Folha O senhor se considera a bola da vez nesta eleição em virtude do resultado do pleito de 1996?
Hauly Cada eleição é um quadro diferente. Estamos diante de uma nova composição. Temos um vice-prefeito diferente, que é o pastor Gerson Araújo, além dos candidatos a vereador. Eu já sou deputado federal e fiz uma boa votação em Londrina. Quanto à eleição de 96, você traz, evidentemente, um acervo grande do trabalho desenvolvido ao longo dos anos. Sem dúvida tenho uma expectativa muito maior nesta eleição.
Folha Qual será o mote da campanha deste ano. Isto já está definido?
Hauly Será Amor a Londrina. Eu acredito que o que mais a cidade precisa neste momento é muito amor, aliado a honestidade e competência. Sem estes ingredientes, Londrina não vai sair da situação em que se encontra. É preciso união e muito trabalho para levantar a prefeitura e os demais problemas do município, quer sejam geração de emprego, habitação, saúde, educação, assistência social e segurança. Mas o grande destaque que pretendemos dar nesta campanha é estimular a comunidade para passar este momento difícil que estamos vivendo.
Folha O senhor está diferente, inclusive na aparência, sem o bigode da campanha passada, óculos novos. Além disso, o senhor sorri mais e se mostra mais receptivo. Esta mudança tem fins eleitorais?
Hauly Nós seres humanos somos espíritos em evolução. Na vida temos de procurar viver intensamente. Acredito que é preciso crescer, sempre. Seja estudando, discutindo, avançando e exercendo o diálogo e a franqueza. Acredito que seja isto. De qualquer maneira me sinto com muito mais experiência hoje do que antes.
Folha Que proposta o senhor apresentará ao eleitor?
Hauly Em primeiro lugar, quero destacar a honestidade e experiência comprovadas. Quero dizer que, se eleito, vou imprimir o máximo de transparência, fazendo uma administração moderna, democrática, participativa e transparente. Pretendo criar a auditoria social, onde os segmentos da sociedade indicariam membros para um grande conselho que teria a incumbência de controlar as contas da prefeitura. Pretendo colocar na Internet as contas da prefeitura: arrecadação, despesa e os contratos, além da publicação do Diário Oficial do Município. Desta maneira teremos instrumentos para poder exercer controle do gasto público.
Folha A idéia é dividir responsabilidades?
Hauly Exatamente. Por outro lado, aplicaria na prefeitura um controle de qualidade. Os funcionários precisam ser estimulados e chamados a participar. Outro instrumento que defendo é uma lei municipal propondo o fim do nepotismo o prefeito e secretários não terão direito a nomear nenhum cargo em comissão. Além disso, proponho-me desde já, através da Folha, de concordar com a quebra de meu sigilo bancário na hora e momento que a comunidade entender ser necessário.
Folha O fato de ser inimigo político do governador Jaime Lerner (PFL) não pode atrapalhar o relacionamento do município com o governo estadual?
Hauly Eu não usaria a palavra inimigo, mas sim adversário político. Mas nos respeitamos hoje. Nestes últimos quatro anos pude ser útil para o Paraná com várias leis de minha autoria. Uma delas diz respeito à compensação financeira do INSS, que já está retornando recursos ao Paraná e à Prefeitura de Londrina. É a chamada Lei Hauly. Jaime Lerner já se referiu a ela por muitas vezes. Então, acho que pela posição que tenho no Congresso, tenho condições de brigar e lutar para trazer recursos.
Folha Qual o principal problema da cidade hoje?
Hauly O problema maior é um desequilíbrio orçamentário crônico acumulado nos últimos 12 anos. O último superávit foi em 1988. De lá para cá foi somente déficit e este é um problema gravíssimo a ser resolvido. Isto implica em envolver a Câmara de Vereadores, funcionários municipais e a comunidade. E para isto, volto a falar, é necessário a participação de todos e o envolvimento do Estado e da União.
Folha Pela ótica do eleitor, este também é o maior problema?
Hauly O que mais atinge a comunidade hoje é o desemprego e a segurança, e, em terceiro lugar, a questão da saúde como um todo. Isto está diagnosticado nas pesquisas que temos feito. Depois vêm outros itens também importantes, mas apontados com menor frequência pela população. Digo isto porque não é o Hauly quem elege isto, mas o próprio eleitor.
Folha Demissões no funcionalismo municipal estão descartadas?
Hauly Estão descartadas. O que falta é um gerenciamento, aumento de arrecadação. Há muitos recursos perdidos e precisa corte de despesas. É preciso também acabar com a corrupção. É possível fazer um trabalho integrado, envolvendo funcionários, e como já disse, a comunidade e os vereadores. Exatamente para levantar todos os problemas e colocar as coisas claras sobre a mesa. Queremos dar tranquilidade aos funcionários municipais e dizer que, se eleito, vamos mantê-los todos na prefeitura.
Folha O que o senhor pensa da Lei de Responsabilidade Fiscal?
Hauly Sempre fui favorável à tese e à prática do equilíbrio das contas públicas e sempre pratiquei isso. Passei pela Prefeitura de Cambé, pela Secretaria Estadual de Fazenda do Paraná e como deputado federal tenho pregado e lutado pelo equilíbrio das contas. A razão é elementar. A dona de casa administra o seu recurso com equilíbrio. E por que o governante não teria a mesma obrigação? Para quem age corretamente, a LRF não é nenhum problema. Ela é empecilho para o mau administrador e para o corrupto.
Folha O fato do senhor ser do mesmo partido do presidente FHC, tendo sido vice-líder do governo, não o atrapalha nesta campanha, já que as pesquisas não são favoráveis ao presidente?
Hauly Me proponho a ser prefeito de Londrina. E com a experiência, conhecimento e condição de liderar um grande grupo. Acredito que o conhecimento que tenho no governo federal é extremamente necessário para Londrina neste momento, para carrear os recursos que a cidade precisa. É inclusive um instrumento poderoso para conseguir do governo do Estado o que não foi possível até agora.
Folha Há projetos para a captação de recursos externos? A cidade tem porte para buscar dinheiro no exterior?
Hauly Tudo depende do tipo de programa que se estabelece. Mas a programação inicial é revigorar as contas públicas do município, estabelecer o crédito que está perdido. Então, pretendemos resolver primeiro este problema, melhorar condições gerenciais e funcionais contando com apoio de todos. Aí sim dá para se estabelecer programas.
Folha Então temos potencial para estes programas?
Hauly Temos sim um grande potencial. Existem aqui universidades, UEL, Unopar e Cesulon. Podemos contar também com a força da comunidade organizada e das entidades prestadoras de serviço.
Folha Mas todos estes projetos ficam para depois que a casa estiver arrumada?
Hauly O que estou propondo é um grande mutirão para atacar problemas básicos. Um exemplo é um mapa feito pelos professores da UEL que mostra a pobreza da cidade. Foi detectado que 13 mil pessoas não têm renda nenhuma, outras 144 mil pessoas têm renda abaixo da linha da miséria. Estas pessoas são o alvo central se eu assumir a prefeitura. No momento em que a prefeitura não tem grandes recursos, posso oferecer o que há de melhor em termos de serviços. Me refiro aos setores educacional, de saúde e assistência social.
Folha Como o prefeito pode realizar isto, dentro de um quadro de escassez de recursos?
Hauly A idéia é fazer por partes. Elege-se o bairro mais pobre a ser trabalhado. A prefeitura chega ao local e leva junto técnicos e estudantes de universidades, além de pessoas da comunidade. Pretendo, se eleito, estruturar no local creche, pré-escola e escola de período integral. A idéia é que as crianças permaneçam o dia inteiro na escola ou na creche. O custo fixo é exatamente o que prefeitura já gasta, bem como as universidades. Os alunos dos últimos anos dos cursos seriam chamados a dedicar três horas semanais à sua comunidade. Estimulando um entrosamento também entre Igrejas, clubes de serviços e associações. O que nós podemos oferecer de melhor é exatamente isto. E a partir daí, desse mutirão, todos os desafios poderão ser vencidos.
Folha O senhor falou da assistência social. E o setor da saúde?
Hauly Na saúde, pretendemos dar ênfase grande ao programa Médico de Família, que tem inclusive recursos do governo federal. Já estou negociando junto à UEL e ao Laboratório de Produção de Medicamentos, um convênio para ampliar a produção do laboratório em 10 vezes. Hoje eles produzem 30 milhões de unidades/ano, que podem ser ampliadas com um pequeno investimento. Isto significa condição de abastecer toda a rede municipal da região, com custo baixo. Quantos aos problemas de superlotação dos hospitais da cidade, acho que o prefeito pode e deve se envolver.
Folha Qual sua proposta para a educação?
Hauly Londrina, segundo estimativas, deve ter cerca de 25 mil pessoas analfabetas. Para reverter isto teremos de contar com o apoio e o envolvimento de todos. É preciso um grande trabalho de alfabetização. Acho que dentro de dois anos é possível tornar a cidade com 0% de analfabetismo. Isto para mim é uma meta de vida.
Folha E como intervir no grave problema da falta de segurança pública?
Hauly A segurança é responsabilidade do Estado, a manutenção das Polícias Civil e Militar. Mas no meu entendimento, este setor também é de responsabilidade do município. Se eleito, gostaria de assumir uma responsabilidade consorciada com o Estado e utilizar a estrutura da prefeitura para criar uma central de informações. Podemos aproveitar a Sercomtel, operadora da cidade e envolver inclusive a União, empresas de segurança, Conselho Comunitário de Segurança e mais uma vez a comunidade. É estimular o entrosamento entre as Polícias e a população para que se possa ter os olhos da comunidade em todos os cantos, em prol da segurança. É preciso também cobrar a proporção que Londrina tem em termos de efetivo policial, viatura, armamento e infra-estrutura.
Folha Em sua campanha haverá alguma menção quanto ao escândalo AMA-Comurb, que desaguou na cassação do prefeito Antonio Belinati (PFL)?
Hauly Duas coisas são muito claras neste episódio lamentável. O problema maior era da Câmara de Vereadores, que foi resolvido com a cassação. Além disso existe um problema de polícia, já que ocorreram desvios. O Ministério Público e a Justiça estão cuidando disso. Acho que a campanha política daqui para a frente tem que ser construtiva. Mostrar ações para reconstruir e organizar a prefeitura, mostrar à população que há a possibilidade de acreditar no órgão público e fazer sobretudo uma campanha de propostas.
Folha O senhor acha que a campanha será violenta, com agressões entre os cinco candidatos?
Hauly Gostaria que a campanha ficasse limitada dentro de apresentação de propostas concretas. Gostaria que fosse esta a regra a ser seguida. Uma campanha limpa e tranquila, com discernimento. Isto para que a população possa optar pelo melhor candidato e não por aquele que mais dá coices.
Folha E com relação à estrutura de campanha? Quanto vai custar a sua?
Hauly Nós propusemos o mesmo valor da eleição passada: R$ 990 mil. Mas em 96 gastamos pouco mais que R$ 500 mil. Acredito que deva ficar dentro destes valores. Será uma campanha modesta, dentro de nossas possibilidades. Evidentemente contaremos com um trabalho da comunidade. O gasto depende da captação e aí eu já conclamo, através da Folha, que todos aqueles que acreditam em nossa proposta que estamos abertos e receptivos às contribuições legais. Isto para poder ajudar a movimentar a campanha.
Folha Com relação à Sercomtel, quais são seus planos? O senhor defendeu participação acionária dos proprietários de linhas. Se eleito dará o direito de ações aos donos de telefones?
Hauly Venho liderando esta bandeira há muitos anos, como presidente municipal do PSDB, enfim. É o direito de propriedade da Sercomtel. Minha proposta concreta é que aos donos de linhas telefônicas seja dada a participação acionária devida que foi negada até agora. Me comprometo a dar a eles o direito de propriedade. Entendo que cada um tem o seu direito acionário. Isto é fundamental, é um direito que tem de ser preservado pelo prefeito. Quero sim fortalecer a Sercomtel. Trata-se de uma empresa modelo, que pode ser melhor ainda. Acho que podemos aumentar seu volume de serviços ao usuário.


