FOLHA – O senhor tem mais quatro anos de mandato no Senado. Por que se candidatar ao governo do Paraná?

Requião - Além de ter quatro anos de mandato, tenho uma participação muito interessante no Senado. Eu sou representante do Brasil no parlamento europeu, latino-americano, presidindo a comissão de desenvolvimento econômico e sustentável, tenho escritório em Bruxelas. Sou presidente e vice-presidente do Parlasul, com sede em Montevidéu. Sou membro do Parlatino. Tenho viajado pelo mundo, tenho sido convidado para fazer palestras sobre economia globalizada, sobre a experiência brasileira, sobre o que eu acho que está acontecendo no Brasil e no resto do mundo. Estou com atividade intensa. Eu sou o senador que mais viaja do Congresso Nacional. Aliás, quando a Globo bota no ar que sou o que mais viaja com gastos em passagem, eu tenho dito que se pudesse ir a pé, eu iria, mas tem um oceano aí no meio, e eu estou meio velho já, com 73 anos, para ir a Europa a nado. Mas isso são as bobagens das críticas sem sentido, porque na verdade eu estou é afirmando a presença do Brasil nesses organismos. Eu tenho falado muito sobre o País e a globalização, e tenho aprendido, tenho me especializado nos efeitos, nas causas da crise da Grécia, na Espanha, Itália e em Portugal, que é o domínio absoluto do capital financeiro sobre os países, e estou vendo o que está acontecendo no Brasil, em escala menor no Paraná, o domínio do capital sobre a política. O Beto (Richa, atual governador) foi financiado por grandes grupos de interesses econômicos e esses grupos hoje tomaram conta do Estado. Tomaram conta da Copel, tomaram conta da Sanepar, ganham fortunas e o povo serviu apenas no processo eleitoral. Não é referência do governo mais. O governo está parado. Eu fui governador três vezes. Isso é para satisfazer qualquer ego. Mas não se tratava de um problema de ego. Eu tinha 300 programas de governo, estão na minha página, expostos um por um. Foram simplesmente demolidos, destruídos, e o que eu vejo é o interesse econômico comandando o processo. O Beto foi financiado na sua eleição para a prefeitura de Curitiba e para o governo do Estado pelos donos do pedágio. Eu tinha tentado resolver o problema do pedágio com ações na Justiça, que era a maneira que você tem. Eram 38 ações que estavam em juízo. O Beto assumiu e primeiro ele suspendeu as ações dizendo que ia negociar. E agora, recentemente, completou a prestação de contas com os financiadores. Ele retirou por desistência as ações em juízo.
E eu tentei fazer o PMDB se acordar e lançar uma candidatura. Mas num determinado momento o pessoal do interior dizia que não existe lançar uma candidatura própria sem candidato, você tem de ser o candidato. Eu estava ferrado nessa minha atividade congressual, que é uma maravilha. Mas resolvi que, se não tem solução, alguém tem que assumir a responsabilidade de pôr a casa em ordem. Lancei minha candidatura. O que aconteceu com o Beto Richa? Ele achava que mesmo sendo o pior governador da história do Paraná, ele derrotava brincando a minha amiga Gleisi Hoffmann. Por quê? Pelo Gaievski, que seria o provável vice-governador dela antes de ser preso, pelo André Vargas, que se transformou num escândalo nacional, pelo Paulo Roberto e o Youssef, com a Petrobras, e pelo Mensalão. E eu não estou fazendo uma acusação. Estou fazendo uma constatação de uma situação difícil. Eu tenho dito que então o PT está talhado na asa. Ele está voando menos que um tucano, está fazendo voo de galinha, levanta aqui e cai ali. Então ele achava que se comprasse o PMDB ele resolvia isso. E partiu para a cooptação dos deputados, que equivocadamente entraram inicialmente nesse jogo. O Beto tentou comprar todos os convencionais. O que teve de delegado do PMDB promovido quando funcionário público... Distribuíram cargos em comissão, empregos e favores. No dia seguinte da convenção, o Aldo Rabelo. Rabelo ou Rebelo? O ministro! Ele almoçou comigo e me disse: Requião eu convidei o Beto ontem, que era o dia da convenção, para uma reunião com a Fifa, e ele disse "eu não posso ir porque vou comemorar o apoio do PMDB à minha candidatura". Levou uma sapecada na convenção. E hoje a disputa está nesse nível e eu estou comparando a administração. O apagão do Beto Richa com o governo do MDB. E o povo me diz: "Requião, o Beto não trabalha; ele não levanta de manhã". Não é verdade. Vocês sabem que não é verdade. Dia que ele faz depilação ele levanta bem cedo. Bronzeamento só faz à tarde. Agora, trabalhar mesmo ele não trabalha. Nós temos o pior governo da história do Estado.


FOLHA - A eleição desse ano foi pautada por um sentimento de mudança, desde os protestos de junho do ano passado...


Requião - Mais do que o sentimento de mudança, uma carência de representatividade. Ninguém nos representa.


FOLHA – Então, eu queria chegar aí. No Paraná, por exemplo, a mudança é voltar para antes e lhe dar um quarto mandato?

Requião – Ninguém fala em dar quarto mandato. Eles querem é o restabelecimento da seriedade do governo. E de um governo que se preocupa com a população e não com negócio. A mudança é a mudança no estilo de governo. A mudança significa a representatividade em resposta às manifestações populares. Os jovens do Brasil inteiro se levantaram. O Congresso Nacional não deu resposta nenhuma, a tia Dilma não deu resposta nenhuma, e ficam com essa conversa de reforma política. Reforma política pra mim é eliminar a participação do capital na eleição. Admitir uma contribuição pessoal com limite, porque senão o rico vai dar tudo e o pobre não vai dar nada. O rico continua dono do candidato. Dois salários mínimos no máximo. Você pode dar R$ 2 ou dar um salário mínimo. É assim que a coisa deveria ter sido feita. Isso é reforma política. O resto é conversa de quem não quer fazer nada.


FOLHA - Quando o senhor cita a presença do capital nas campanhas e a questão do pedágio financiando o Beto Richa, eles respondem que o senhor tem o Marcelo Almeida como candidato ao Senado. Como é essa relação?

Requião – E daí? O que o Marcelo Almeida é? Ele é filho do Cecílio. Você acha que o cara por ser filho deve responder por tudo? O Marcelo Almeida é candidato porque tem sido meu companheiro de política, o Marcelo Almeida é respeitadíssimo pela esquerda do Congresso Nacional e por todo mundo, porque é um deputado sério. O que é o Marcelo Almeida? Um católico praticante, casado, com quatro filhos, estudioso, que saiu da empresa, nunca se envolveu com a empresa do pai, e que pensa sobre o pedágio a mesma coisa que eu penso. Ele não é parte da empresa CR Almeida. Nunca foi. E ele pensa como eu: o pedágio pode ter, pode existir, desde que seja acessível à população e que não estrangule a economia. Agora, por que eu vou condenar o cara por ser filho do Cecílio? Nem vou condenar e nem vou beatificar. Ele vale pelo que ele é.

‘Há um apagão de gestão pública’
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FOLHA - Na prévia do seu plano de governo, protocolada junto ao TRE, o senhor usa muito as palavras resgatar e recuperar... Que programas o senhor acredita que foram esquecidos pela atual gestão e mereceriam ser retomados?

Requião - Resgatar a gestão. Não tem mais planejamento no Estado. O Estado funciona em cima de negócios dos financiadores de campanha. E resgatar fundamentalmente as políticas de longo prazo. O Paraná tem de se preparar para o futuro. Você não pode criar uma política fiscal para favorecer um empresário que financiou uma campanha. Você tem que criar uma política fiscal consolidada, acessível por qualquer pessoa que queira investir, via computador. Não tem que falar com Ricardo Barros, nem com a Cida Borghetti, nem com o Luiz Abi, para conseguir uma vantagem fiscal. Tem de estar lá. O cara se enquadra, entra na internet e faz isso. Foi o que eu fiz. Política de médio e longo prazo. Você não pode depender de uma comissão de picaretas, alguns bem-intencionados, outros nem tanto. E outra coisa: nós não podemos continuar dando benefícios para empresas estrangeiras que nós não damos para as brasileiras. Isso tem de ser linear. Eu dei benefícios para as microempresas, lembram? Imposto zero para as micros e 2% para as pequenas. O Beto entrou com a antecipação tributária, que é a substituição tributária, e destruiu isso tudo, está quebrando todo mundo. O que adianta você ser uma pequena empresária e não pagar imposto, se o imposto é antecipado? Você não pode nem compensar o ICMS. Está ferrada. Está fechando.


FOLHA - Qual a sua avaliação do Programa Paraná Competitivo?

Requião - É a cópia do meu. Só que o Nosso Paraná Competitivo privilegiava o interior, as cidades e tal. Esse não. Esse privilegia quem a comissão aceitar.


FOLHA - Existe algum programa iniciado nessa gestão que o senhor gostaria de manter?

Requião - Eu não conheço os programas. A única coisa que eles falam é esse, que não existe porque é uma cópia do nosso.


FOLHA - Unidades de Polícia Pacificadoras...

Requião – Ah, isso é brincadeira. É uma brincadeira do garotinho. Todos os nossos programas foram desmontados. Por isso que eu sou candidato.


FOLHA – Há dissidentes dentro do PMDB que resolveram trabalhar abertamente contra a sua candidatura, inclusive com a realização de passeatas na Boca Maldita, em Curitiba. Que reflexos isso traz para sua campanha e, numa eventual vitória, para o seu governo?

Requião - Aquilo vai acabar na Penitenciária de Piraquara. É crime eleitoral e como crime será tratado. É tão insignificante, que eu pessoalmente não vou dar importância. O (Orlando) Pessuti, que eu coloquei como secretário da Assembleia, apoiei para ser presidente da Assembleia e foi meu vice duas vezes, acabou como trombonista da banda do Doático, ganha R$ 300 por semana.


FOLHA – E num eventual governo?

Requião – Essa gente? Longe. Mostraram que não têm nenhum espírito público. Vão trabalhar, não é? Vão procurar o que fazer...


FOLHA - O senhor orientou a sua equipe a no primeiro turno não agredir, não atacar a Gleisi. Por quê?

Requião - A Gleisi é minha amiga pessoal. Na minha primeira campanha, a Gleisi era estudante, estava na frente de um diretório, gravou Vts e me ajudou. Não gosto é do marido dela, que é o homem da Globo, é a direita do PT. Não gosto dele. Ou melhor, gosto dele, mas não gosto do que ele faz. Não gosto dos métodos do que ele faz, isso é claro, todo mundo sabe disso. Então se eu tivesse que disputar uma eleição com a Gleisi seria uma discussão em nível de proposta. Eu por exemplo sou contra 12 horas para motoristas rodoviários e a Gleisi defendeu isso no Congresso. Não posso concordar. É o que ela pensa? Não, não é. É o que o PT mandou ela fazer, um acordo com grandes transportadoras. Não gosto da posição dela em relação aos pequenos empresários. É dela? Não, não é. Mas ela não podia ceder. Eu por exemplo, não cedo a nada que eu não concorde. Se eu tiver que perder a eleição para garantir uma opinião, já perdi. Eu não vou mudar o que eu penso.


FOLHA - O senhor falou "se tivesse que disputar uma eleição com ela"... Mas o senhor não está disputando agora?

Requião - Eu acho que, com toda a franqueza, o PT está muito desgastado. Eu acho que a Gleisi mantém a candidatura para sustentar a campanha da Dilma.


FOLHA - O senhor levantou a bandeira contra os transgênicos durante sua última gestão no governo do Estado. Se eleito, é uma questão que pode ser retomada?

Requião - É um troço bacana, né? Por exemplo, as cooperativas do Paraná hoje estão me procurando para discutir os transgênicos. Eles querem vender o convencional. Está dando 20 reais a mais por saca. E os nossos produtores misturam tudo. Eu segregava, separava. Eles estão misturando e perdendo mercado. Isso é a favor, evidentemente, da Monsanto. Alguém deve ter algum lucro com isso e não é o Brasil. Eu sou presidente da Comissão de Economia Sustentável do Parlamento Europeu. A Europa inteira está proibindo transgênico. Eu tenho medo de amanhã, se eu plantar um rabanete ou um tempero aqui no quintal da minha casa, ter de pagar royalties. Isso que é a loucura básica. Como é que se apropriam de uma essência natural para cobrar comissão? Uma loucura...


FOLHA - Voltando um pouco à relação do PMDB com o PSDB. Em 2006, o senhor se empenhou na aliança com os tucanos, que só não vingou porque foi vetada pelo PSDB nacional. Por que essa relação mudou?


Requião – Com os tucanos do bico vermelho. Eu não faço, como disse a você, eu acho que o PT está baleado, mas tem gente muito boa no PT. E o PSDB evidentemente era um pessoal nacionalista. As circunstâncias da filiação partidária no Brasil não definem a posição política, ideológica, a visão da economia, desgraçadamente não definem. Está tudo misturado.


FOLHA - Considerando o fato de a Copel ter acionistas privados, até que ponto o governo do Estado influencia na tarifa cobrada?

Requião - Eu fui governador três vezes. Eu congelei a tarifa sete anos e construí a usina de Santa Clara em Guarapuava e comecei Mauá. Toquei duas usinas e as pequenas centrais elétricas. Mantive as tarifas congeladas e dei energia de graça para os mais pobres. O governo tem condições. Agora, se você bota o representante da empresa privada, que vai ganhar dinheiro com isso, na presidência da Copel, não tem mais. Quem é o presidente da Copel? Era o diretor de comunicação na época da venda, aquele cara que fazia a Copel parecer um elefante branco. Lembra disso? Esse cara é o presidente. Segundo consta, colocado pelo grupo Gulin, que está intermediando venda de energia da Copel para a Copel.


FOLHA - O reajuste de quase 15% na tarifa da luz, que já ficou para o ano que vem, então dá para reaver?

Requião - Fizeram reajustes ao longo desse tempo todo. Você tem de começar a rever o lucro privado. Baixa para 25%. Tira o peso dessas diretorias, elimina a terceirização, faz uma auditoria sobre essas compras de energia eólica no Rio Grande do Norte, que não estão em operação. Isso foi para salvar empreiteiro. Alguém entrou numa fria e a Copel engoliu. Não tem cabimento isso.

FOLHA - Durante seus dois últimos mandatos no governo do Paraná, o senhor se posicionou contra empréstimos, que é uma questão que tem reverberado na campanha. Hoje, eles se tornaram uma maneira de os governos estaduais conseguirem realizar investimentos. Se eleito, como essa questão será tratada?

Requião - Votei a favor dos empréstimos, meu voto foi favorável. Mas não consigo entender como tem R$ 600 milhões para gastar em publicidade e precisa pedir R$ 800 milhões de empréstimos. Hoje tem um número fantástico de cargos em comissão, entupiram a Sanepar de aspones. Os funcionários demitidos da Prefeitura de Curitiba, quando eles perderam a eleição, foram todos para a Fundação Copel. Bom, se tem dinheiro para comprar eólica no Rio Grande do Norte, se tem dinheiro para aumentar, por exemplo, a dotação do Judiciário, do Ministério Público e da Assembleia em R$ 500 milhões por ano, para que empréstimo? Eu sou a favor de empréstimo, mas empréstimo não pode ser usado para pagar folha. Empréstimo é investimento em infraestrutura, que tem uma resposta da economia e do Estado e se paga a médio e longo prazo. Empréstimo para pagar folha é loucura.


FOLHA – O governador argumenta que esses empréstimos, inclusive do Proinveste, são importantes para a realização de investimentos...

Requião - São importantes para a reeleição do Beto Richa, mas não vai adiantar. Não tem governo. É um apagão de gestão pública. Eu fico estupefato.


FOLHA – O Tribunal de Contas tem alertado para o deficit na Paranaprevidência. Que medidas o senhor propõe para tentar solucionar o problema? Há possibilidade de cobrança dos inativos?

Requião – É uma pergunta maravilhosa. A única previdência do Brasil que não teve prejuízo com a crise de 2008/2009 foi a nossa, porque eu mandei ela aplicar somente em títulos do Tesouro. Dinheiro do funcionalismo não é capital de risco. Foi a única do País que não teve prejuízo. Eu proibi as aplicações privadas, os investimentos de risco, e ela teve uma rentabilidade. Eu deixei a Paranaprevidência com R$ 7 bilhões. Não sei o que estão fazendo com ela, mas sei que tiraram R$ 500 milhões para pagar comissionados. Precisamos fazer uma auditoria na Paranaprevidência. Não tenho acesso a essas coisas, porque não tem transparência no Paraná.


FOLHA – Sobre corrupção na administração pública, um tema bastante levantado durante os protestos do ano passado. Que mecanismos o governo do Estado pode adotar para combatê-la?

Requião – Transparência. Colocar tudo na internet. A única maneira de conter isso é não esconder nada. Porque aí qualquer pessoa pode ver, denunciar e protestar.


FOLHA – O senhor requisitou a aposentadoria de ex-governador, benefício que está sendo questionado pela Ordem dos Advogados do Brasil no Supremo Tribunal Federal. O senhor defende a manutenção do benefício? Por quê?


Requião – Eu queria ficar igual à mãe do Beto Richa. Quando eu soube que ela recebia sem nunca ter sido governadora, eu pedi também. Fiquei 16 anos contestando essa aposentadoria, mas de repente comecei a ser condenado por todo o ladrão que eu denunciei. Fui condenado pelo Ingo Hübert, da Copel, que teve aquele desvio que foi para o Fantástico, porque os juízes diziam o seguinte: "o fulano não foi condenado ainda em instância irrecorrível; o Requião não pode chamá-lo de ladrão". E eu estava cumprindo a minha obrigação de governador, denunciando trambique e trambiqueiro. Então chegou num momento em que eu teria que vender essa casa, que é a única coisa que eu tenho para ser vendida. Comprei quando era estudante, no BNH. Depois fui reformando. Tinha 124 metros. Não tinha a parte de cima, nem a garagem. Construí isso ao longo de 32 anos. Eu ia ter de vender isso aqui para pagar indenização. Então eu realmente passei a requisitar essa pensão para amortizar esse valor. Eu não ia poder viver, condenado todo dia.


FOLHA – O Gaeco, por missão, precisa atuar de forma independente, sem interferência de governos estaduais, embora, historicamente, no Paraná, haja notícias que vão contra tal preceito. Da mesma forma, a interferência política nos tribunais de Contas dos Estados também é considerada um dos principais problemas no combate à corrupção. Que análise o senhor faz disso?


Requião – Tudo isso tinha que sofrer uma modificação muito grande. O Gaeco tem prendido gente de uma forma absolutamente ridícula. O Gaeco deixou o (Paulo) Furiati, ex-prefeito da Lapa, três meses na cadeia, sob o pretexto de que ele teria ganhado uma comissão junto com outras duas pessoas, seriam três, de R$ 9 mil. O Furiati é um milionário. R$ 3 mil para o Furiati é gorjeta que ele dá para o engraxate. Não é suborno para ele fazer trambique. Estão brincando com isso. Agora, não esqueçam que o Gaeco... Era o Dartagnan Abilhoa, que foi o cara apanhado com carro roubado, que era o comandante do Gaeco. Ele não foi punido. Ele foi aposentado. Então não há essa sacralização do Ministério Público também. Eles têm uma função a corresponder, mas são muito exibidos. Estão exagerando nas prisões. Estão prendendo gente que não tem nada a ver com isso. Eu não posso dizer para você que eu acho isso bom. Bota o cara na cadeia 20, 30, 60 dias. Desmoraliza um sujeito e depois não tem sequer uma ação penal, uma denúncia. O que você acha disso? O cara completamente desmoralizado, os filhos desmoralizados na escola, e não tem denúncia?!


FOLHA – E quanto aos tribunais de contas, das interferências?

Requião – Só uma coisa resolve: transparência. Você veja, por exemplo, hoje, eu diria que os salários dos juízes todos estão com uma defasagem de correção monetária que não foi aplicada, mas aí eles resolvem criar auxílio residência, auxílio biblioteca, auxílio computador, auxílio moradia. Isso é uma desmoralização. Será que eles não percebem que daqui a pouco vão estar, se é que já não estão, tão odiados quanto os parlamentares? Está errado. "Não, nós temos que ganhar bem". Sim, mas e o trabalhador não precisa ganhar bem?


FOLHA – O senhor citou essa questão do pedágio várias vezes. Mas relatório do Ministério Público Federal divulgado neste ano aponta que durante os seus dois últimos mandatos no governo do Estado "se iniciaram os atos "informais" de modificação do Plano de Exploração de Rodovias (PER), que suprimiram ainda mais obras em troca de redução tarifária". O senhor acompanhou de perto essas decisões?


Requião – Mentira. Não aponta, não foram denunciados, não fiz acordo secreto, não fiz nada disso. No começo do governo, o pessoal das cooperativas queria que eu negociasse com o pedágio. Então se criou uma comissão para negociar. Eu disse "tudo bem, se vocês me trouxerem uma proposta para derrubar 30 ou 40% eu considero". Eles foram à luta, não fizeram essa proposta e eu esqueci que esse troço existia. Jamais fiz concessão a bandido. Eu não negocio contra o interesse público.


FOLHA – O senhor não é cobrado pelo "baixa ou acaba"?

Requião – Não. São duas hipóteses: ou baixa ou acaba. E eu não dei nenhum aumento. Entrei com as ações que seriam julgadas mais dia ou menos dia. E eu nunca prometi isso. Eu me comprometi com isso. Quem faz promessa é o crente para o santo da sua devoção. E eu não afrouxei um minuto a corda.


FOLHA – Na gestão atual, começou a funcionar a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados e se iniciou parcerias público-privadas para obras em rodovias...

Requião – Isso é uma patifaria total, a tal Parceira Público-Privada. É uma patifaria. Porque não tem dinheiro privado nisso. É o BNDES que financia. É o sistema de trem da tia Dilma. Agora ela garante para o pessoal que entrar que ela compra o movimento da estrada, paga, vende e se não conseguir vender ela paga do mesmo jeito. É o take or pay. Se o Estado puder usar, vender e terceirizar, tudo bem. Senão ele paga do mesmo jeito. Isso é uma loucura. Só existe no Brasil. Isso chama-se Paulo Bernardo e esta gente toda. São as críticas que eu faço à Dilma. Ela tem cedido a essa pressão. Por quê? Porque o Estado não conseguiu fazer nada e de repente no desespero ela quer mobilizar alguém para fazer. Mas é um erro. Você tem de acreditar no País, acreditar na capacidade de empreendimento do nosso empresariado. Nós não somos um país de bananas. Nós temos condições de tocar.


FOLHA – A Defensoria Pública foi implementada. Como estruturá-la e fortalecê-la?

Requião – Defensoria Pública forte é besteira. Isso é reivindicação de advogado desempregado. Você pega uma cidade como São Paulo: quantos habitantes tem? Cidade pobre, com favelas que são maiores que Curitiba. Quantos defensores que precisa? 150 mil? Todos ganhando como juízes e promotores? Entrando em férias porque são funcionários públicos? E ainda fazendo greve no meio do processo? Não é a solução. Numa cidade pequena, num Estado pequeno, é solução. No Acre e no Amapá, onde há pouca gente, você bota lá 200 advogados e eles dão um jeito na coisa. Eu não acredito nisso. Eu fiz convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil e pagava por ato processual, porque aí você tem advogado a beça. Funciona bem? Tem problema também, muito vagabundo que não vai trabalhar, que vai abandonar. Mas não vejo solução nisso. Não vejo. Quantos mil precisa em São Paulo? Quem é que vai pagar isso? Quem é que vai controlar isso? E ainda querem autonomia, orçamento próprio. Que brincadeira é essa? Não consigo me convencer disso. Não voto contra, viu? Só acho uma besteira. Não me convence esse troço de Defensoria Pública, até porque eu conheço o nível das escolas de Direito. Eu acho que você começava a resolver o problema prisional com a pena alternativa e esse fim da máfia da prisão provisória. Só o Brasil tem isso.


FOLHA – Jaime Lerner, o senhor e Beto Richa têm em comum... (interrompeu a pergunta)


Requião – O branco dos olhos.


FOLHA – …os três são ex-prefeitos de Curitiba. Isso significa que, há 20 anos, o governo do Estado é comandado por um ex-prefeito de Curitiba. Em função disso, há um eleitorado que acredita que as atenções e os investimentos do governo do Estado se concentram na capital. Há ações específicas para o interior previstas no seu plano de governo?

Requião – Eu fui quem mais fez por Londrina nos últimos 30 anos. Eu construí os Hospitais da Zona Norte e Zona Sul, que eram prontos-socorros, transformei em hospitais com mais de 130 leitos cada um, eu reconstruí pronto-socorro, construí hospital de transplante de embrião, eu construí hospital de queimados, eu dupliquei a Carlos Strass, eu resolvi o problema de água e esgoto, eu fiz o Jardim Botânico, eu fiz escolas... Ninguém fez mais do que esse nosso governo em Londrina.


FOLHA – Há ações específicas no seu plano de governo previstas para o interior do Estado?

Requião – Eu acho que a primeira coisa são os incentivos para a industrialização do interior, que têm de ser incentivos fáceis, estabelecidos por internet e que não privilegiem. O que se faz hoje? Se privilegia as grandes multinacionais. Elas se instalam onde querem e acabam com o financiamento. Nós temos de fazer o pessoal ir para o interior se instalar. E as nacionais é que estão lá. Quer dizer, dar oportunidade de crescimento para as empresas locais. Eu sou brasileiro, não sou francês nem americano.

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