HÁ 50 ANOS - Vidas marcadas pelo Golpe Militar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Mariana Franco Ramos<br>Reportagem Local 
"Onde sopram os ventos do esquecimento, a volta de tempos de horror é sempre possível". Com essa frase, a jornalista e ambientalista Teresa Urban defendeu, em seu livro "1968 Ditadura Abaixo", que as memórias dos tempos de chumbo fossem mantidas vivas. Para relembrar o Golpe Militar, que em 2014 completa 50 anos, a FOLHA ouviu ex-militantes, professores e integrantes da Comissão Estadual da Verdade (CEV). Assim como Teresa, falecida no ano passado, após sofrer um enfarte, eles fazem parte da história da resistência política no Paraná. Os depoimentos serão publicados nas edições de hoje e amanhã.
Em 1º de abril de 1964, quando as Forças Armadas tomaram o poder, derrubando o governo do presidente João Goulart, Narciso Pires tinha apenas 14 anos. Natural de Cornélio Procópio, mas criado em Apucarana, onde fazia parte da União dos Estudantes, ele foi uma das vítimas da chamada Operação Marumbi, desencadeada no início dos anos de 1970, com o objetivo de desarticular um suposto movimento clandestino de reorganização do Partido Comunista Brasileiro (PCB). "Nós tínhamos um grupo de garotos, na faixa de 15 a 20 anos. Desse grupinho, dois foram assassinados - Antonio dos Três Reis de Oliveira e José Idésio Brianezi. Todos os outros foram presos", contou.
Brianezi foi executado sumariamente, aos 24 anos, por policiais militares numa pensão do bairro paulistano Campo Belo. Já Oliveira, cuja morte chegou a ser negada pelas autoridades de segurança pública, desapareceu aos 21, também em São Paulo, em um "aparelho" como eram denominados os imóveis onde os militantes se escondiam. Seus restos mortais jamais foram entregues à família.
A detenção de 1975 foi, segundo Pires, a mais grave das seis que enfrentou durante a ditadura. "Fui sequestrado e brutalmente torturado no quartel do exército em Apucarana. Depois, levado para Curitiba. Fiquei dois anos preso lá", relatou. O "crime" era ser integrante do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), antecessor do PMDB e único partido de oposição permitido na época.
De acordo com o "Grupo Tortura Nunca Mais" do Paraná, presidido por Narciso Pires, pelo menos quatro mil pessoas foram presas por motivações políticas no Estado entre 1964 e 1985, sendo que aproximadamente mil delas sofreram algum tipo de tortura. Os números, contudo, podem ser maiores, pois muitos arquivos daquele período nunca chegaram a ser abertos.
Leia também:
- Promessa feita na prisão
- Trajetória 'sem martírio'
- Levada pela arte


